Era como se tivesse uma bola de cristal. Foram muitos os que lhe chamaram visionário, mas quem privou com Stanley Ho durante mais de 30 anos prefere falar numa “intuição excecional para o que o entusiasmava”. É assim que Mário Assis Ferreira lembra o empresário que nasceu em Hong Kong, refugiou-se em Macau e chamava casa a Portugal. O magnata dos casinos morreu esta terça-feira, aos 98 anos, no Hong Kong Sanatorium Hospital. “Pode ter deixado de existir, mas para mim continua a ser”, lamenta o chairman da Estoril-Sol.
É também essa qualidade, de ver o futuro antes dos outros, que permanece nas memórias mais vívidas que Jorge Ferro Ribeiro guarda de Stanley Ho. Parceiro de negócios do empresário chinês durante 30 anos, através da holding Geocapital, Ferro Ribeiro recorda a “capacidade que ele tinha de compreender a realidade inevitável do futuro”.
Aconteceu com a EDP, e com um CEO que, em 2006, tinha acabado de chegar. Stanley Ho era acionista da elétrica nacional, e ficou impressionado com o plano estratégico de António Mexia para a empresa. “Queria tornar a EDP num player mundial da energia verde. Apoiámos a ideia a 100%, o que hoje parece fácil, mas na altura não era”.
O investimento na EDP foi um dos muitos que Stanley Ho teve espalhados por Portugal. Começou com os casinos, que manteve até ao fim, no Estoril, em Lisboa e na Póvoa de Varzim. Tornou-se acionista de referência do Banco Português do Atlântico e do Millenium BCP, e teve um “investimento significativo” no Crédito Predial Português.
A diversificação do portefólio estendeu-se depois à companhia de navegação Portline e ao imobiliário, através do investimento na zona que hoje é conhecida como Alta de Lisboa. Foram milhares de milhões investidos em Portugal, não se sabem quantos ao certo. “Só para a Fundação Oriente contribuiu com cerca de 400 milhões de euros”, revela o CEO da Geocapital.
“Não preciso de ficar mais rico”
A história daquele que viria a ser um colosso do mundo empresarial começa a escrever-se em Hong Kong, em 1921, mas é em Macau, para onde fugiu para escapar à ocupação japonesa, que se desenrolam os principais capítulos. Foi no território na altura administrado por Portugal que Stanley Ho conquistou, com a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, o monopólio de exploração do jogo, que seria seu durante 40 anos.
Apesar de se “entregar de alma e coração” aos projetos, relata Assis Ferreira, e de entrar em cada desafio para ganhar, Stanley Ho nunca se rendeu aos jogos de azar. “O jogo dele era mais o ténis”, conta Ferro Ribeiro, parceiro de vários encontros. Mas manteve ainda assim, durante alguns anos, uma tradição peculiar.
No Ano Novo Chinês, o empresário organizava uma cerimónia tradicional num dos seus casinos, colocava uma ficha na mesa de jogo e dizia aos jogadores presentes: “Aconselho-vos a não jogar, porque a probabilidade de perderem é grande, e eu não preciso de ficar mais rico”. Durante vários anos, Stanley Ho foi um dos homens mais ricos do mundo, mas perdeu grande parte da fortuna na crise financeira de 2008.
Em Macau, o empresário tornou-se no impulsionador de grandes projetos de infraestruturas, ainda antes da transferência do território para a China, que contribuíram para “tornar Macau naquilo que é hoje”. Além da dragagem dos canais de navegação, uma contrapartida pelo monopólio do jogo, Stanley Ho esteve por trás de empreitadas como a construção do aeroporto internacional, o porto de águas profundas ou a ponte de 4,5 quilómetros que liga Macau a Taipa.
Todas estes projetos foram erigidos em consórcio com empresas detidas a 100% pelo Estado chinês, uma relação que Stanley Ho cultivou ao longo dos anos, e que haveria de ter repercussões em Portugal.
Ferro Ribeiro não duvida que, sem Stanley Ho, talvez a China Three Gorges não fosse hoje acionista maioritária da EDP. Porventura a State Grid não teria entrado no capital da REN. E é possível que a Sinopec não tivesse olhado para a subsidiária brasileira da Galp, a Petrogal Brasil.
“Ele não se contentou com as boas relações diplomáticas entre Portugal e a China. Por ter relações próximas com os grandes grupos económicos chineses, procurou sempre sensibilizá-los para investir em Portugal. Tenho a certeza que desempenhou um papel muito importante nos grandes investimentos que tiveram lugar, sobretudo, durante a última crise financeira”, nota o CEO da Geocapital.
O negócio falhado dos telemóveis
À “paixão por Portugal”, relatada por todos os que lhe eram próximos, Stanley Ho juntava uma “capacidade de avaliação excecional relativamente às particularidades da sensibilidade ocidental”, explicita Mário Assis Ferreira, o que facilitava os negócios. Depois de Macau passar para a administração chinesa, Stanley Ho foi o pivot da criação do Fórum de Macau para a Cooperação com os Países de Língua Oficial Portuguesa. Nesses países, foram feitos vários investimentos no setor financeiro, “porque ele percebeu a importância das relações irmãs de Portugal com os países de língua portuguesa”.
Ao longo da vida, não foram muitos os negócios que deixou por concretizar, mas houve um que ficou atravessado. No início dos anos 90, Stanley Ho e Ferro Ribeiro estabeleceram um consórcio com três gigantes das telecomunicações, de França, Alemanha e Hong Kong, e apresentaram-se a concurso para tentar obter uma das primeiras licenças para operar uma rede de telemóveis em Portugal. Perderam para a TMN, que obteve a primeira, e para a Telecel, que garantiu a segunda. “Ainda hoje estamos a tentar perceber porque não ganhámos”, confessa Ferro Ribeiro.
O jogo dos negócios terminaria em julho de 2009, quando Stanley Ho sofreu uma queda que o confinou a uma cadeira de rodas, tendo aparecido em público raras vezes desde então. Mas só em 2018 abdicou da liderança das holdings, que passou para a filha Daisy Ho.
Ferro Ribeiro, que manteve um contacto próximo com o empresário, garante que este “nunca se deixou assustar com a passagem dos anos”. Assis Ferreira visitou-o pela última vez há cinco anos, num encontro onde foram recordadas “as pequenas discordâncias, que acabavam sempre resolvidas”.
O chairman da Estoril Sol tinha prometido a si próprio que, “quando se desse este desfecho, iria a Hong Kong para lhe prestar uma última homenagem”. A pandemia trocou-lhe as voltas. “Tenho essa amargura de, por estarmos nesta situação, não conseguir fazê-lo”.
Em 1998, Macau deu o seu nome a uma avenida. Cascais seguiu-lhe o exemplo, uma década depois. Em ambos os casos, foi o primeiro cidadão chinês a receber a homenagem em vida. Stanley Ho olhava “com gosto” para as honras que lhe eram concedidas, mas não se envaidecia com elas, diz Ferro Ribeiro. Nessas cerimónias, repetia sempre a mesma graça. “Espero que, quando eu morrer, não mudem o nome às avenidas”.
Fonte: Negócios




