Loading
Associe-se

Portugal entre Xi e Trump: Artigo de opinião do Secretário-Geral da CCILC

Portugal entre Xi e Trump: Artigo de opinião do Secretário-Geral da CCILC
Publicado em 18 Maio, 2026
Partilhar

Há encontros que valem menos pelo que resolvem do que pelo que revelam. O encontro entre Xi Jinping e Donald Trump, em Pequim, deve ser lido não tanto como o início de uma nova harmonia sino-americana, mas antes como uma tentativa de gerir uma rivalidade que condiciona a economia mundial, a segurança internacional e a […]

Artigo de opinião do Secretário-Geral da CCILC para o Jornal Económico:

Há encontros que valem menos pelo que resolvem do que pelo que revelam. O encontro entre Xi Jinping e Donald Trump, em Pequim, deve ser lido não tanto como o início de uma nova harmonia sino-americana, mas antes como uma tentativa de gerir uma rivalidade que condiciona a economia mundial, a segurança internacional e a margem de manobra dos países europeus. Não estamos perante uma simples disputa comercial. O que está em curso é uma reconfiguração das relações e equilíbrios globais.

Para os países europeus, a consequência mais evidente é a necessidade de voltarem a pensar por si próprios. Efectivamente, entre Washington e Pequim, a Europa tem-se revelado mais um espaço de adaptação do que de iniciativa. E isso torna-se particularmente problemático num momento em que a sua base industrial, a sua autonomia tecnológica e a sua relevância económica são permanentemente postas à prova.
Portugal deve olhar para este contexto com realismo e muita vontade de transformação. Se é evidente que não tem escala para determinar o rumo do sistema internacional, não é menos verdade que possui condições para ocupar um lugar útil numa geografia económica mais abrangente. A posição atlântica, a rede portuária, a capacidade aeroportuária e a ligação histórica entre Europa, África e espaço transatlântico conferem-lhe um potencial ainda longe de plenamente aproveitado.

Nesse sentido, Portugal pode afirmar-se como plataforma logística, diplomática e económica entre a Europa e o Atlântico, mantendo simultaneamente capacidade de relacionamento com a China, os Estados Unidos, África e a América Latina. Isto não implica neutralidade absoluta nem equidistância artificial. Implica, isso sim, uma política externa orientada pelo interesse nacional e europeu, ao invés de alinhamentos automáticos.
Os desenvolvimentos em torno do 5G mostram precisamente as dificuldades portuguesas neste domínio. Há vários anos que o País está sujeito a pressões de Washington para excluir fornecedores chineses, enquanto Pequim dá sinais de que o afastamento político terá consequências mais transversais. Hoje, infelizmente, o debate fez caminho para os semicondutores, inteligência artificial, dados críticos e redes submarinas. Em vez de afirmar critérios claros e previsíveis, Portugal hesitou demasiadas vezes e escolheu lados noutras ocasiões, deixando que o conflito geopolítico contaminasse a estabilidade regulatória e o Estado de Direito.
O essencial deveria ter sido simples: aplicar regras técnicas transparentes, avaliações independentes e mecanismos de contraditório válidos para qualquer fornecedor, independentemente da sua origem. A segurança nacional protege-se através de instituições robustas e critérios objectivos, não por impulsos conjunturais. Países confiáveis são aqueles cujas regras permanecem previsíveis mesmo sob pressão externa.
É precisamente aqui que regressa uma palavra central: confiança. Falamos frequentemente de cadeias de abastecimento de energia, semicondutores, lítio ou contentores. Mas a cadeia mais frágil da economia internacional talvez seja hoje a da confiança. Sem previsibilidade, nenhum investimento de longo prazo é sustentável.

Essa fragilidade torna-se ainda mais evidente no domínio nuclear. Desde o enfraquecimento dos grandes tratados de controlo de armamento, o mundo entrou num período de crescente incerteza. Enquanto várias potências modernizam os seus arsenais, os mecanismos de verificação e limitação perdem relevância e eficácia. Ora, a confiança não se improvisa durante uma crise; constrói-se antes dela, através de regras e canais diplomáticos permanentes.

Portugal não é uma potência nuclear, mas tem um interesse directo num sistema internacional regulado. Países médios e pequenos dependem mais das regras do que da força. Defender a retoma de mecanismos de redução de risco e negociação estratégica não é ingenuidade: é reconhecer que a estabilidade internacional depende da existência de previsibilidade mínima entre adversários, até para evitar as precipitações que sempre são mais susceptíveis de acontecer quando não existe contacto entre as partes.

Não pretendendo apagar os efeitos da ruptura unilateral do JCPOA pelos EUA em 2018, a recente crise no estreito de Ormuz tornou essa vulnerabilidade particularmente visível. Quando uma passagem marítima estratégica se transforma num foco de tensão, o problema deixa de ser apenas energético. Atinge os fretes, os preços, a segurança alimentar e a estabilidade económica global. A geopolítica deixou de ser um tema distante; passou a interferir directamente na vida quotidiana das sociedades. E isso acontece porque o enfraquecimento das regras internacionais, dos mecanismos de confiança e dos canais diplomáticos torna o sistema global mais imprevisível e mais vulnerável a escaladas sucessivas. É também por isso que o encontro entre Xi e Trump pode assumir especial importância – num mundo cada vez mais fragmentado, qualquer tentativa de estabilização entre as grandes potências tem consequências muito para além da relação bilateral entre ambas.

Neste contexto, é útil recordar o discurso de John F. Kennedy na American University, em 1963. Kennedy insistia numa ideia simples: a paz não é um estado passivo, mas um processo construído através de prudência, negociação e redução gradual de riscos. Num tempo em que a linguagem da força regressa ao centro da política internacional, essa ideia recupera particular actualidade.
A mesma lógica ajuda a interpretar a importância de preservar canais diplomáticos, mesmo em contextos de conflitualidade. Manter espaços de diálogo entre a China e os EUA ou com a Rússia, incluindo em fóruns multilaterais como o G20, não significa relativizar responsabilidades. Antes pelo contrário, significa reconhecer que a ausência absoluta de canais diplomáticos tende historicamente a aumentar os riscos. A Europa tem interesse em preservar instrumentos de contacto político, mesmo em períodos de forte tensão internacional.

Mas a discussão sobre Portugal não deve limitar-se à diplomacia. Deve incluir também uma visão económica de longo prazo. Num mundo mais dividido, países de média dimensão podem ganhar relevância precisamente através da capacidade de ligação. Portos, aeroportos, plataformas logísticas e corredores atlânticos podem transformar Portugal num ponto de articulação entre diferentes espaços económicos, trazendo prosperidade ao país.
A memória histórica ajuda a compreender esta vocação. Não para romantizar o passado, mas para reconhecer que Portugal desenvolveu, ao longo da sua história marítima, experiência de circulação, intermediação e construção de redes internacionais. Num tempo marcado pela fragmentação e pela desconfiança, essa tradição e crédito podem voltar a ter utilidade estratégica nos dias de hoje.

No fundo, a questão decisiva é simples: que papel pode ter um país como Portugal num mundo crescentemente polarizado? A resposta não está nem na ilusão de uma neutralidade absoluta nem na dependência automática de blocos externos. Está numa política de inteligência estratégica, previsibilidade institucional e criação de valor. Tudo isto exige, porém, superar uma histórica dificuldade portuguesa em executar planos de longo prazo com continuidade política.

Portugal continuará certamente a ser um país pequeno em dimensão. Mas isso não impede que possa ser útil como espaço de ligação económica, estabilidade regulatória e mediação diplomática. A sua relevância dependerá menos da força que possui e mais da confiança que consiga gerar.

Temos geografia, posição atlântica e capacidade de adaptação. O que eventualmente nos falta é ambição proporcional às nossas possibilidades reais. Num tempo em que Estados Unidos e China procuram gerir uma rivalidade que moldará as próximas décadas, os países europeus não podem limitar-se à espera. Portugal também terá de escolher o lugar que quer ocupar. Não entre Trump e Xi, mas entre dependência e autonomia, entre imprevisibilidade e Estado de Direito, entre reacção e iniciativa. São essas as escolhas que verdadeiramente definirão o nosso futuro.