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China descarboniza a economia através do Hidrogénio Verde

China descarboniza a economia através do Hidrogénio Verde
Publicado em 7 Dezembro, 2022
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A China, como segunda maior economia global, comprometeu-se a atingir o pico das suas emissões de carbono antes de 2030, e a atingir a total neutralidade carbónica até 2060. Se os objetivos chineses se concretizarem, o país irá alcançar um feito único por ter atingido um dos declínios mais rápidos das emissões de CO2. A China pretende em menos de 30 anos passar do pico de emissões para a total neutralidade carbónica.

O aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE), em particular de dióxido de carbono (CO2), está a provocar uma mudança irrefutável no clima mundial. A ameaça das alterações climáticas tem não apenas provocado uma crise devastadora no meio ambiente, mas também afetado a estabilidade geopolítica, colocando uma nova pressão sobre atividades sociais e económicas da humanidade. Nesse sentido, para minimizar os efeitos das alterações climáticas, as maiores economias mundiais têm apostado na transformação e descarbonização dos seus sistemas energéticos. As medidas de descarbonização de maior relevo focam-se na utilização de recursos energéticos de origem renovável ou de energia nuclear, no desenvolvimento de mecanismos de captura e armazenamento de carbono, na eficiência energética e na implementação de diversos mecanismos de mercado que desincentivem o uso de tecnologias poluentes, e.g. taxas de carbono.

No quadro legal, a descarbonização mundial ganhou um novo fôlego após a assinatura do Acordo de Paris, negociado em 2015, no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas. No acordo foram estabelecidas medidas para a diminuição das emissões de CO2 a partir de 2020, estabelecendo-se como objetivo manter o aumento da temperatura média mundial abaixo dos 2°C em relação aos níveis pré-industriais. Como consequência do Acordo de Paris, vários blocos económicos, dos quais se destacam a União Europeia, os Estados Unidos da América e a República Popular da China, começaram a traçar estratégias para reduzir a sua pegada de carbono. A China, como segunda maior economia global, comprometeu-se a atingir o pico das suas emissões de carbono antes de 2030, e a atingir a total neutralidade carbónica até 2060. Se os objetivos chineses se concretizarem, o país irá alcançar um feito único por ter atingido um dos declínios mais rápidos das emissões de CO2. A China pretende em menos de 30 anos passar do pico de emissões para a total neutralidade carbónica. Em comparação, a União Europeia prevê atingir a neutralidade carbónica em 2050, tendo o seu pico de emissões sido alcançado em 1979, ao passo que os Estados Unidos preveem que a eliminação das suas emissões desde o máximo histórico até à neutralidade dure 40 anos.

Não obstante, os combustíveis fósseis representam, atualmente, 90% da oferta de energia primária da China e são responsáveis por emissões anuais de 9,9 gigatoneladas (Gt) de CO2 (28% das emissões globais), o equivalente a mais de 2 mil milhões de veículos ligeiros a emitirem 4,6 t/ano cada.

 

Adaptado de Agência Internacional de Energia

No âmbito do desafio de atingir a neutralidade carbónica até 2060, a China inaugurou, em julho de 2021, o maior mercado de comércio de carbono do mundo, criando a primeira estrutura de âmbito nacional para a regulamentação e cotação das emissões de GEE no país. Adicionalmente, a China tem vindo a implementar Planos Quinquenais com metas vinculantes para reduzir a intensidade carbónica e energética. O mais recente plano quinquenal foi publicado em março de 2021, e visa reduzir a intensidade de carbono (quantidade de CO2emitida por unidade do PIB) em 18% e a intensidade energética (quantidade de energia consumida por unidade do PIB) em 13,5% até 2025. O plano também estabelece que a proporção de fontes de combustíveis não fósseis na matriz energética da China se deve cifrar em pelo menos 20% e almeja construir 1200 GW de potência elétrica eólica e solar entre 2021 e 2025, o equivalente a cerca de 40 vezes a potência elétrica total em Portugal.

Note-se que a China, na sua matriz energética, tem mais de 60% de carvão e mais de 25% em petróleo e gás natural. A Figura 2 mostra a matriz energética da China em 2019, enfatizando a sua alta dependência de combustíveis fósseis, em particular de carvão.  A figura 2 contém ainda uma previsão da matriz energética de 2025, sendo de salientar o crescimento da produção energética de origem renovável e, consequentemente, a redução do consumo de carvão.

 

Adaptado de Administração Nacional de Energia da China e Universidade de Tsinghua

No último plano quinquenal, a produção de hidrogénio (H2) surge como uma das indústrias prioritárias a desenvolver, sendo destacado pelo potencial para descarbonizar sectores como o transporte, o aquecimento, a indústria pesada, bem como possibilitar o armazenamento de energia de longa duração. Para promover o desenvolvimento da economia do H2, muitos governos provinciais e autoridades do governo central conceberam políticas públicas para apoiar o setor e aumentaram o investimento em investigação e desenvolvimento nesta tecnologia. Na China, em 2022, um número crescente de projetos de H2 abrange a totalidade do país, salientando-se que 23 províncias e municípios formularam planos de desenvolvimento para o mercado de H2 e incluíram-no como prioridade fundamental para o desenvolvimento sustentável. Destacam-se o cluster económico Beijing-Tianjin-Hebei (conhecido como Jing-Jin-Ji), as províncias de Guangdong e Henan e o município de Shanghai como áreas de demonstração para o desenvolvimento do mercado de H2 (ver Figura 3).

 

Adaptado de Ministério de Recursos Naturais da República Popular da China, 2019  

De acordo com o nível de desenvolvimento da indústria de produção de H2 verde, estas regiões podem receber benefícios fiscais até aproximadamente 241 milhões de euros. Adicionalmente, o município de Beijing e a província de Jiangsu aceleraram o planeamento e construção de postos de abastecimento de H2, e a província de Zhejiang estabeleceu o uso direto de H2 em centrais de cogeração, adquiriu transportes públicos elétricos alimentados a fuel cell, introduziu o uso de H2 na sua rede portuária e planeia a produção de H2 por eletrólise com energia vinda da eólica offshore. Outro exemplo meritório é o da Região Autónoma da Mongólia Interior, onde o departamento de planeamento energético está a delinear sete projetos de energia eólica e solar nas cidades de Ordos e Baotou que permitirão a produção de cerca de 67 000 toneladas por ano de H2 verde. No total, a Mongólia Interior pretende atingir o valor de 100 000 toneladas por ano de H2 verde até 2023, desenvolver 60 postos de abastecimento de H2 e adquirir milhares de veículos a fuel cell para aplicar aos setores da mineração, logística e transportes públicos.  Tendo a ambição de liderar o setor do hidrogénio mundial, a China está a emergir rapidamente como um dos países com maior capacidade instalada de eletrolisadores, sendo atualmente responsável por 35% da capacidade mundial da produção de eletrolisadores.

Esta ambição sai reforçada com a publicação, em março de 2022, do Plano Quinquenal de Execução “Novas Fontes de Armazenamento de Energia”. No documento foram definidas novas metas para 2025 para toda a indústria do H2, dos quais se destacam a expansão dos postos de abastecimento de veículos fuel cell e uma meta nacional de capacidade de produção de H2 renovável entre 100 000 e 200 000 toneladas por ano. Além disso, o Plano restringe o desenvolvimento da produção de H2 baseada em combustíveis fósseis (H2 cinzento), promove o estabelecimento de um mercado de hidrogénio próximo às instalações de produção, e enfatiza a importância do desenvolvimento de tecnologias mais avançadas, incluindo a produção nuclear de H2 (H2 rosa) e eletrólise da água do mar, entre outros.

Em suma, a China tem metas de descarbonização ambiciosas e é o maior produtor de H2, com cerca de 33,42 megatoneladas (cerca de 25% do total mundial). No entanto, a maior parte desse H2 é ainda gerado a partir de combustíveis fósseis. Para lidar com esta dicotomia entre a origem fóssil da maioria do H2 produzido e a produção por via renovável, em coerência com as metas de neutralidade carbónica para o País, é vital que a produção de H2 verde aumente nos próximos anos.

Devido ao desfasamento entre a procura energética nas áreas costeiras mais industrializadas, como Shanghai e Pequim, e a capacidade de oferta de áreas mais ricas em recursos renováveis no oeste e noroeste, como a Mongólia Interior, o H2 aparece no centro da estratégia de descarbonização chinesa.

Neste sentido, o H2 torna-se vital para garantir o cumprimento das metas de neutralidade carbónica e constitui um vector flexível de armazenamento e transporte de energia, assegurando um maior equilíbrio económico entre as regiões remotas da China e os seus centros económicos.

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