O Secretário-Geral da Câmara de Comércio e Indústria Portugal-China (CCILC) acredita que a visita de Ho Iat Seng a Lisboa constitui uma oportunidade para reacender os laços. A comunidade empresarial portuguesa está ansiosa por expandir o acesso ao mercado para dar entrada aos seus produtos. Bernardo Mendia espera também que a visita do Chefe do Executivo possa lançar luz sobre os incentivos e o futuro ambiente de negócios para as empresas portuguesas em Hengqin.
1 – Quão importante é a visita de Ho Iat Seng a Portugal, e quais são as suas expectativas para a mesma?
Bernardo Mendia – Atribuímos grande importância a esta visita. Na verdade, Macau faz parte da história comum de Portugal e da República Popular da China, representando um trunfo estratégico da relação bilateral entre os dois países. Não devemos esquecer que, no actual contexto de reajustamentos geopolíticos, que ditarão o futuro económico das próximas gerações, a Europa e a China precisam de canais de comunicação para assegurar que os seus interesses e necessidades sejam devidamente transmitidos. Não é por acaso que o Sr. Ho Iat Seng viaja para Portugal. Na verdade, nenhum outro país ocidental tem tantos factores de aproximação e convergência com a China como Portugal. Considere a série de eventos que terão lugar durante o biénio 2023-24, após a nomeação de um novo Embaixador português em Pequim e de um novo Cônsul-Geral de Portugal em Macau: Este ano marca tanto o 510º aniversário da chegada de Jorge Álvares à China como o 10º aniversário da iniciativa para o desenvolvimento de infra-estruturas de conectividade na Ásia, Europa e África, denominada “Nova Rota da Seda”; e também o 20º aniversário do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Macau)
Mencionou as tensões geopolíticas entre a China e o Ocidente. Poderá Bruxelas utilizar Portugal para comunicar mais facilmente com Pequim através de Macau?
Bernardo Mendia – É do interesse de Portugal e da sua responsabilidade sensibilizar Bruxelas para esta questão. No entanto, se Bruxelas não for capaz de tirar partido da posição única de Portugal em relação à China, então Portugal poderá assumir um papel proactivo e liderar o caminho, alavancando a sua relação de confiança e respeito mútuo com a China para extrair benefícios para a sua comunidade empresarial e o consequente desenvolvimento económico do país. Por conseguinte, esperamos que durante esta viagem, o Chefe Executivo ofereça a sua influência e contactos no governo central para ajudar Portugal a obter as licenças de exportação necessárias para os seus produtos, a fim de alcançar uma balança de pagamentos bilateral mais equitativa. Esperamos também que Macau forneça mais informações sobre como a cidade em questão e Hengqin podem servir como uma plataforma eficaz para as empresas portuguesas fazerem negócios com a China e o Sudeste Asiático, semelhante a Hong Kong e Singapura na Ásia ou Irlanda na Europa. Esta será uma oportunidade para conceber e apresentar incentivos específicos para as empresas portuguesas e chinesas criarem joint ventures na região.

3 – Como podem as relações comerciais Macau-China-Portugal ser levadas a um nível superior?
B. M. – Dei alguns exemplos específicos há pouco, mas é a língua portuguesa, os resquícios da cultura lusófona em Macau, o diálogo institucional e a confiança entre os povos e os governos dos dois países que tornam a relação de Portugal com a China, através de Macau, única no mundo. A elevação da relação implica mais reciprocidade, o que só pode ser alcançado se Portugal exportar muito mais produtos para a China [continental]. Para isso, precisamos que o governo chinês acelere os procedimentos de autorização de exportação de produtos portugueses. Acredito que o Sr. Ho Iat Seng pode contribuir para isso, exercendo os seus contactos e influência no Governo central.
4 – Quais são os planos da CCILC para a sua sucursal de Macau em 2023?
B. M. – A Delegação da CCILC em Macau tem um elevado grau de autonomia. Embora, após o fim da pandemia, tenhamos planos para aumentar a cooperação, por exemplo, organizando delegações comerciais de Portugal para Macau e de Macau e da China para Portugal. A Delegação em Macau tem agora 31 anos, chefiada por Carlos Álvares, CEO do centenário Banco Nacional Ultramarino – emissor de 50% de todas as Patacas no território -, e cujo accionista é o banco português Caixa Geral de Depósitos. O Conselho de Administração da Delegação, bem como os Órgãos da Autoridade, incluem algumas das mais importantes empresas de Macau e indivíduos de prestígio da comunidade luso-macanesa.
5 – A CCILC irá liderar uma delegação empresarial a Macau, Hong Kong e Guangzhou em Junho. Quais são os principais objectivos e expectativas para esta visita?
B. M. – Após três anos de fronteiras fechadas, sentimos a necessidade de promover o contacto directo entre empresários e empresas portuguesas e chinesas, incluindo as Regiões Administrativas Especiais. O contacto presencial é fundamental para construir a confiança, que é o factor mais importante nas relações empresariais e pessoais. Por outro lado, a Área da Grande Baía é um conceito completamente novo, ainda desconhecido na Europa, e queremos introduzir este novo conceito na comunidade empresarial portuguesa, visitando as duas Regiões Administrativas Especiais e Guangdong, pois estamos certos de que muitas oportunidades de negócio surgirão à medida que a integração desta mega região se aprofundar.
6 – Qual é a sua opinião sobre o desenvolvimento conjunto de Hengqin, e que oportunidades vê para as empresas portuguesas?
B. M. – Tenho a certeza que será uma mudança no jogo para a região dentro de alguns anos, tal como a maioria dos mega projectos chineses. Por enquanto, também estamos ansiosos por compreender o que isso implica, nomeadamente que tipo de sistema fiscal, legal, administrativo será implementado, os incentivos existentes, políticas de atracção de talentos, infra-estruturas logísticas, etc. Esperamos que o Chefe do Executivo e a respectiva delegação empresarial esclareçam tudo isto durante a sua visita a Portugal.
Fonte: Macau Business




