Está a trabalhar no Instituto Português do Oriente (IPOR) há 18 anos, tempo passado por diversas funções, a última das quais como vogal da direcção, e é agora a nova directora da instituição. Em entrevista ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, Patrícia Ribeiro, que assumiu as rédeas do IPOR oficialmente a 10 de Julho, disse estar empenhada em fazer “uma agenda transformadora e inovadora” para os próximos três anos, o período do seu mandato. Formada em Sociologia, a número um daquele que é o principal instrumento de promoção da língua e cultura portuguesas no Oriente, quer marcar a diferença sendo “mais interventiva”, porque reconhece que o IPOR pode fazer ainda mais do que tem feito, ser mais activo, “não só na internacionalização como aqui em Macau”. A instituição chega a mais de 2.000 alunos nos vários cursos de que é responsável no território e tem realizado por ano cerca de 300 exames de certificação como língua estrangeira. Quanto a professores, há 16 na RAEM, um Pequim e de Portugal estão a chegar mais dois. Patrícia Ribeiro tem vontade de chegar à Grande Baía, para “alargar a oferta” não só em Hengqin como trabalhando de perto com as representações diplomáticas de Portugal em Cantão
Vítor Rebelo
– Tem ligação ao IPOR desde 2005, mas noutras funções e, possivelmente, sem poder de decisão, em termos gerais. O que poderá mudar a partir do momento em que passou a ser directora?
– Apesar de já estar na instituição há 18 anos, saber toda a mecânica e como funciona poderá ser uma vantagem para quem inicia um mandato, porque nós sabemos que os outros directores chegavam e não conheciam o IPOR. Por isso, o primeiro ano é aquele em que estamos à procura de ver como funciona, quais são os nossos parceiros, identificar estratégias. O que muda exactamente comigo é que eu já conheço este mecanismo, já tenho uma série de linhas orientadores para poder trabalhar e poder então reforçar o trabalho do IPOR em Macau. Pretendo fazer uma agenda transformadora e inovadora, uma vez que já consigo ver o nosso percurso e ver os pontos em que é necessário actuar. Mas quero fazer esta agenda de outra maneira, mais interventiva. Mais interventiva no sentido de ter a equipa toda a trabalhar, não só internamente com os nossos colaboradores, e identificar também com eles mecanismos e formas de trabalho que se adequem mais para aproveitamento dos recursos e poder torná-los mais eficazes, mas também com os nossos parceiros, com as entidades com quem nós trabalhamos. Ou seja, identificar com eles pontos onde poderemos chegar mais perto das necessidades que eles têm. Isto vai ser um trabalho que vamos fazer para a actuação do IPOR ser reforçada em Macau.
– Qual tem sido a evolução da Língua Portuguesa em Macau? Tem havido apoio do Governo da RAEM?
– Tem evoluído muito bem e há um reforço por parte das entidades locais para que se mantenha e que não se perca. Tivemos realmente aqui no IPOR e nas outras instituições uma quebra, mas todos nós sabemos porquê e agora verificamos que o Governo de Macau não baixou armas, pelo contrário, criou novas estratégias para o reforço da língua. Há uma aposta contínua e o IPOR começou também a trabalhar nesse âmbito, nas escolas, porque é muito importante que a aprendizagem de uma língua comece nos mais pequenos. Nós já tínhamos feito isso com a oferta de oficinas para miúdos, a partir dos seis anos, mas o Governo da RAEM prosseguiu com este apoio, não só criando escolas bilingues, como temos o caso da Zheng Guanying e da Luís Gonzaga Gomes, que têm agora turmas bilingues, mas também com o incentivo da Língua Portuguesa nas escolas privadas, como língua curricular ou extra curricular, onde o IPOR tem estado presente nestes últimos anos. Tem-nos sido requisitado professores para irem para estas escolas. Portanto, eu penso que isto continua a ser reforçado.
– Há cada vez mais alunos a querer aprender Português nas universidades e nas escolas? Com a abertura das fronteiras pode registar-se um aumento de estudantes?
– Penso que sim. A partir de agora vai haver um aumento e nós verificámos isso já na Universidade de São José, que vai ter outra vez o curso a funcionar e com muitos alunos, o que foi também uma surpresa para eles. Portanto, eu penso que vamos voltar aos tempos mais áureos do ensino do Português nas licenciaturas, nos mestrados e doutoramentos nas universidades.
– Atendendo a que o IPOR tem apostado na divulgação da Língua Portuguesa na Ásia, até que ponto isso poderá ser mais alargado?
– Sim, nós temos um professor em Pequim, desde 2019, que tem trabalhado na divulgação de cursos gerais, como temos aqui, mas para oferta em Pequim, na embaixada, e também em formação de certificação de língua portuguesa na universidade. Queremos agora também alargar o âmbito da formação de professores nesta região. E com a assinatura de um protocolo, em Dezembro do ano passado, que fizemos com o Instituto Camões, vamos coordenar de alguma forma os leitores de toda esta região da Ásia, desde a Indonésia, Vietname, Austrália, China que são vários, e queremos alargar ainda mais, para a Malásia, por exemplo, porque estamos a tentar abrir lá um leitorado. Portanto, trabalhar esta rede, não só na questão da formação de professores, mas também numa agenda cultural itinerante. É aí que incidirá o reforço que o IPOR pretende aplicar.
– Quantos professores distribuídos pelo IPOR existem em Macau e noutros países ou regiões?
– Em Macau são 16, mais o de Pequim 17 e depois temos a nossa coordenadora do centro de língua e a adjunta. Depois, na rede do Camões, não sei o número concreto, mas relativamente àqueles países que mencionei são cerca de uma dezena. Mas depois há muitos outros.
– Os professores são todos portugueses e vindos de Portugal?
– Não. Temos uma professora de Pequim, que estudou em Portugal e fez licenciatura e mestrado e trabalhou em Portugal. Quando lançámos o processo de recrutamento ela veio para cá, onde está há três anos. Nos últimos anos contratámos muitos locais, também formados em Portugal com mestrado na área do Português como língua estrangeira, e terminada a formação voltaram para Portugal. Alguns já saíram do IPOR, encontram outras oportunidades em Macau, porque a procura de professores nestes últimos anos tem sido grande, mas felizmente nós temos conseguido dar resposta. Temos um corpo docente de metade professores portugueses de Portugal e contratados aqui. No recrutamento já entrou um professor de Português que se encontrava na China, mas vêm agora mais dois de Portugal. Perdemos alguns com a pandemia, mas as vagas vão ser repostas. Vamos reforçar o nosso corpo docente.
– Quantos alunos tem o IPOR?
– Nós não paramos, porque é contínuo. Os nossos cursos, entre os cursos gerais e as oficinas, têm cerca de 1.200 alunos, temos durante o Verão os cursos intensivos que chegam aos 100, outros para fins específicos aqui, porque depois o IPOR, como actua muito fora, assegura, por exemplo, o Português curricular nos cursos do IFT, com várias turmas, 500 alunos nestes últimos anos. Damos também a parte da língua portuguesa nos cursos da Escola Superior das Força de Segurança, que atinge os 300 alunos por ano. Também na Função Pública onde damos cursos específicos, com mais uns 150.
– Que projectos tem o IPOR para a Grande Baía?
– Gostávamos muito de alargar a nossa oferta também de cursos e parcerias dentro da área da formação para esta região, não só começando aqui mais perto, em Hengqin, mas trabalhando igualmente de perto com as representações diplomáticas de Portugal em Cantão. Vamos tentar e tem havido protocolos a serem feitos com universidades de Portugal e da zona de Cantão. Este é um momento em que vamos reflectir e ver em que medida podemos também aí trabalhar, porque é ainda um bocadinho desconhecido qual é o âmbito de acção em que podemos lá chegar. De qualquer maneira, surgem-nos sempre universidades que vêm procurar no IPOR não só a questão da formação de professores, mas também a requisição de professores para as universidades, para o ensino da Língua Portuguesa.
– Tem havido um aumento constante na certificação do Português como língua estrangeira. De que forma é feita?
– Na RAEM somos nós, a Universidade de Macau e a Politécnica, são três para esta região. O IPOR tem tido cerca de 300 candidatos por ano nas três épocas disponíveis, mas em todo o mundo há vários locais de aplicação de exames. Para além destes exames, foi assinado também outro protocolo com o Instituto Camões para a certificação dos mais jovens, o Camões Júnior, criado em Janeiro deste ano. Já fizemos a aplicação de exames numa escola de Macau, o Colégio Anglicano, e estamos agora a entrar em contacto com mais duas escolas para ver se vamos inserir estes meninos neste circuito dos 12 aos 17 anos de idade.
– O IPOR é a maior estrutura que o Camões tem no mundo em termos de encargos. O IPOR tem capacidade para alargar o seu papel dentro do quadro do actual orçamento? Ou seja, precisa de mais verbas?
– Depende da procura que vamos ter, mas o objectivo é alargar. E será aqui em Macau, reforçando com outros protocolos, que se podem fazer com instituições privadas e instituições do ensino superior e com outros organismos da RAEM. Será sempre necessário alargar o corpo docente para podermos responder da melhor maneira a estes pedidos. Normalmente, os associados não têm que intervir financeiramente nestes processos, porque isto são acordos que se fazem, onde a prestação de serviços será sempre retribuída por parte dos nossos parceiros. Portanto, sim, poderá fazer crescer o orçamento do IPOR, mas não terá necessariamente que haver um reforço por parte das contribuições associativas. Por outro lado, pretendemos, até ao final do ano, alargar a base associativa, porque temos o Camões e a Fundação Oriente, mas depois temos quatro associados minoritários, BNU, EDP, Hovione e a STDM e queremos até ao final do ano acrescentar mais dois. Há algumas conversas, já há algumas empresas que foram contactadas, porque normalmente são empresas que têm ligação a Portugal, e, portanto, é nossa intenção fazer este reforço, que poderá aumentar as contribuições associativas ao IPOR.
– O IPOR deixou de fazer alguma actividade importante por falta de verbas?
– Não por falta de verba, esse não tem sido o problema. O problema foi de não poder trazer pessoas. No entanto, não deixámos de fazer, porque, claro que houve uma reinvenção das coisas. Tivemos de reagir às novas contingências e por isso continuámos a fazer o nosso plano de actividades com outras dinâmicas, utilizando o online para fazer, por exemplo, o nosso “Pontos de Rede” anual. Trouxemos na mesma o cinema, mas também com os realizadores via zoom, fizemos sempre estas adaptações. Na minha opinião, não vai deixar de existir o híbrido, porque o sistema já está instituído e, queiramos ou não, há muitas vantagens de podermos envolver mais actores do que se envolviam anteriormente. Nós participámos num congresso no início deste ano, em Abril, organizado pela Universidade de Macau e a Universidade de São José, que foi o seminário “Pluri 2023” e o IPOR acabou por participar e ceder instalações para se realizarem workshops aqui presencialmente. Mas tivemos sempre pessoas online, porque quando se começou a projectar o congresso ainda não sabíamos na realidade se iríamos estar abertos para poder receber elementos de fora e acabámos por manter o híbrido. Penso que isto é algo que se vai manter. A pandemia veio trazer uma série de realidades e dinâmicas que não vamos deixar de ter. São alternativas que se verificaram e que são boas, para as coisas acontecerem.
– Reconhece que o IPOR tem de ser mais activo?
– Acho que sim, na internacionalização e mesmo em Macau, mais colaborativo com outras associações, porque se nós trabalharmos todos em conjunto para o objectivo da língua e da cultura portuguesa, fazer a divulgação aqui em Macau, preservamos a presença portuguesa no território. Se as várias associações e instituições que têm este objectivo se juntarem podemos fazer mais e melhor, com mais qualidade e marcar esta presença em Macau. Penso que tem vindo a ser feito trabalho nesse sentido, reforçando essas colaborações com entidades como a Fundação Rui Cunha, a Casa de Portugal e a Fundação Oriente que está presente também aqui, mas podemos trabalhar mais ainda.
– O Instituto Camões tem uma nova presidente, Ana Paula Fernandes. Como tem sido o apoio do Governo português?
– Da parte dos nossos associados as contribuições associativas têm-se mantido já há bastantes anos e têm sido suficientes para a nossa gestão interna de parte do funcionamento. Temos uma parte significativa de receita proveniente dos cursos e prestação de serviços que nós fazemos, mas depois temos a parte cultural que é feita sempre através de apoios financeiros, não só da RAEM, mas também de Portugal. E aí dispomos também da colaboração do Camões muitas vezes na realização destas actividades e da Fundação Oriente. Do governo português, portanto, continuamos a ter um forte apoio.
– Quais são as actividades principais do IPOR até ao final do ano?
– Uma delas é esse encontro anual de professores, “Pontos de Rede”, que já vai na oitava edição. Lançámos já a chamada para as pessoas apresentarem os seus trabalhos e este ano vamos estar centrados na interculturalidade, o tema central do encontro que será feito online, em Novembro. Por outro lado, participámos como co-produtores de uma das exposições que vai estar integrada na Bienal Internacional de Arte de Macau, que tem esta produção com a Bienal de Cerveira, cujos elementos estão a chegar, uma vez que vai ser inaugurada no dia 1 de Agosto no Armazém do Boi. Trata-se de uma exposição integrada com 27 artistas e, através do Consulado, pediram ajuda de um produtor local e o IPOR disponibilizou-se para fazer essa parte, uma vez que eles estavam lá e precisavam de saber o espaço, como iríamos fazer a expografia da exposição. Era necessário fazer toda esta ligação, mesmo a produção de materiais aqui de divulgação. O IPOR acabou por fazer a co-produção do projecto e temos dado todo o apoio à equipa de Cerveira. Vamos continuar também com o Letras e Companhia, cuja próxima edição está programada para 2024.
– Sente-se bem no cargo?
– É sempre estranho, já estou a trabalhar aqui há muitos anos e sempre trabalhei com muito empenho e profissionalismo, mas nunca esperei chegar a este cargo. O trabalho que sempre dediquei ao IPOR foi porque gosto da instituição, gosto da missão que ele tem aqui em Macau, tenho muito orgulho em trabalhar no IPOR, representar Portugal e proporcionar às pessoas de Macau um bocadinho da nossa cultura, da nossa língua.




