A China está a perder atratividade como mercado para as multinacionais europeias e a ganhar importância como plataforma industrial e exportadora, uma transformação que ameaça agravar os desequilíbrios comerciais, alertou hoje a Câmara de Comércio da União Europeia.
No Documento de Posição 2026/2027, a organização, que representa mais de 1.600 empresas europeias na China, considerou que o papel do país está a passar do modelo “na China para a China” para outro de “na China para o mundo”, impulsionado pelas cadeias de abastecimento, polos industriais e capacidade de produção.
“Historicamente, grande parte da atratividade da China residiu no seu mercado, vasto e em rápida expansão (…). Embora isto continue a ser verdade em muitos casos, é cada vez mais a sua posição sólida nas cadeias de valor mundiais que a torna atualmente indispensável”, afirmou o presidente da Câmara, Jens Eskelund.
A organização associou a transformação aos desequilíbrios entre oferta e procura na segunda maior economia mundial.
Na primeira metade de 2026, a produção industrial chinesa cresceu 5,4% em termos homólogos, o dobro das vendas a retalho, que aumentaram 2,7%, ampliando a diferença entre aquilo que a China produz e o que o mercado interno consegue absorver.
Segundo a Câmara, o desequilíbrio está a obrigar mais empresas a procurar crescimento através das exportações e a alimentar aquilo que Pequim designa por “involução”: setores marcados por excesso de investimento, concorrência através de cortes de preços e margens de lucro cada vez menores.
Em 2025, quase 25% das empresas industriais chinesas registaram prejuízos, enquanto a proporção média de empresas cotadas cujas receitas não chegam para cobrir o pagamento de juros atingiu mais do dobro da média mundial, segundo dados citados no relatório.
A Câmara reconheceu que as exportações chinesas oferecem produtos mais baratos aos consumidores estrangeiros e ajudam a “conter a inflação”, mas alertou para preocupações nos parceiros comerciais quanto à perda de empregos, aumento da dependência e redução da segurança económica.
As empresas europeias apontaram também obstáculos persistentes no acesso ao mercado chinês. Cerca de 29% dos participantes no inquérito anual da Câmara denunciaram tratamento diferenciado nos concursos públicos e 21% nas compras realizadas por empresas estatais.
No setor das telecomunicações, a organização estimou que as empresas europeias detinham apenas cerca de 3% do mercado chinês de 5G em 2025, contra 96% dos fornecedores nacionais. Na Europa, os fabricantes chineses controlavam mais de 30% do mercado, segundo o documento.
A Câmara apontou ainda problemas relacionados com os direitos de propriedade intelectual, a previsibilidade regulamentar e as dificuldades para descarbonizar as operações na China, apesar da posição dominante do país em várias tecnologias verdes.
Apesar de alguns indicadores terem melhorado, 68% das empresas consultadas no inquérito de confiança empresarial de 2026 consideraram que fazer negócios na China tornou-se mais difícil, enquanto apenas 53% colocaram o país entre os três principais destinos atuais de investimento, o nível mais baixo registado.
O documento reconheceu, contudo, sinais positivos nas políticas mais recentes de Pequim, incluindo o compromisso, inscrito no 15.º Plano Quinquenal, de estimular o consumo, combater a concorrência “involutiva” e aprofundar a abertura do setor dos serviços.
A publicação surge num período de fortes tensões entre Pequim e Bruxelas devido ao défice comercial europeu, às acusações de excesso de capacidade industrial chinesa, aos controlos às exportações de terras raras e às restrições mútuas em setores estratégicos.
O comissário europeu do Comércio, Maros Sefcovic, vai reunir-se em outubro com o ministro chinês do Comércio, Wang Wentao, na segunda sessão do Conselho de Comércio e Investimento, na qual Bruxelas espera obter “resultados concretos” para reequilibrar a relação.
Fonte: Executive Digest




