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Com a “diplomacia das máscaras”, China afirma-se como salvadora do mundo

Com a “diplomacia das máscaras”, China afirma-se como salvadora do mundo
Publicado em 27 Abril, 2020
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Que se saiba, o Presidente Xi Jinping não fez nenhum apelo público para que as empresas da China ofereçam materiais para travar a pandemia da covid-19, mas chovem notícias diárias sobre doações para os quatro cantos do mundo: máscaras chinesas, ventiladores chineses, testes chineses, fatos chineses, óculos chineses, luvas chinesas e até médicos chineses são enviados para ajudar a combater o novo coronavírus.

As doações são actos de generosidade espontânea ou parte de uma política concertada de Pequim? Dez diplomatas ouvidos pelo PÚBLICO, no activo e reformados, mas todos conhecedores da política e história chinesas, não hesitam: a China quer ser vista como “salvadora do mundo”, um país generoso e altruísta, que ajuda os outros quando eles mais precisam, e nada está a acontecer por acaso.

Em poucas semanas o léxico da geoestratégia ganhou duas expressões novas: “diplomacia das máscaras” e “viruspolitik”. Pragmáticos, é à China que todos os países vão comprar equipamentos de combate à covid-19 porque, como disse ao PÚBLICO um assessor político do Governo regional dos Açores envolvido na compra recente de 9,3 milhões de euros de material médico chinês, “a China era a única porta que estava aberta”. O mundo parece estar a sentir pela primeira vez na pele, sublinham os diplomatas ouvidos, que “a China é mesmo a fábrica do mundo”.

Ao mesmo tempo que compra milhões de euros de material à China, a Europa discute a urgência de pôr fim à dependência dos produtos “made in China”. Muitos parecem antecipar mudanças. “Um dos efeitos desta crise é que, provavelmente, as cadeias de valor vão reaproximar-se dos centros de consumo”, disse esta semana o ministro da Economia português, Pedro Siza Vieira, numa entrevista ao Jornal de Negócios, acrescentando que “esse é um efeito que pode beneficiar Portugal”. São múltiplos os sinais desta vontade de “relocalizar as indústrias” e tirá-las da China.

Há dias, Margrethe Vestager, vice-presidente da União Europeia e comissária para a Concorrência, disse que os Estados-membros devem comprar participações das empresas dos seus países para evitar o avanço das rivais chinesas (“é muito importante estar ciente de que há um risco real de que as empresas vulneráveis ​​possam ser objecto de uma aquisição” hostil da China). Em Fevereiro, o ministro das Finanças francês, Bruno Le Maire, disse que o seu governo “faria tudo” para proteger as suas grandes empresas dos efeitos causados pela pandemia — “até nacionalização”; a seguir, o Presidente Emmanuel Macron anunciou uma injecção de quatro mil milhões de euros no orçamento da Saúde para tornar a França “auto-suficiente” na produção de máscaras faciais (“devemos reconstruir a nossa soberania nacional e europeia”), e esta semana houve indicações não oficiais de que o Governo de Berlim vai comprar a companhia aérea alemã Condor.

A tendência existia antes da pandemia. Em 2018, num gesto raro, a influente Federação das Indústrias Alemãs (BDI) pediu às empresas da Alemanha para “reavaliarem” a sua presença na China (“apesar da atractividade do mercado chinês, será cada vez mais importante que as empresas examinem atentamente os riscos de seu envolvimento na China e minimizem a sua dependência, diversificando cadeias de fornecedores, locais de produção e mercados de vendas”). E a Comissão Europeia acaba de publicar Uma Nova Estratégia Industrial para a Europa — prevista no programa dos primeiros 100 dias da presidente Ursula von der Leyen — cujo objectivo é “reforçar a autonomia estratégica da Europa”. Mas estes são os planos para o futuro.

Doações para Portugal

Para já, com as populações fechadas em casa e as economias em ponto morto, os países europeus continuam a comprar à China e a receber as suas doações. Só para Portugal houve mais de 20: o município de Shenyang fez uma doação à Câmara Municipal de Braga; a empresária Ming Chu Hsu (da empresa Reformosa – Imobiliário) fez uma doação à Câmara Municipal de Lisboa; a Fósun doou para o Sistema Nacional de Saúde (SNS); a Universidade de Medicina de Cantão para o ISCTE; a Qingdao Bofu Medical School para a Câmara Municipal de Cascais; a State Grid, através da REN, para o Hospital de Santa Maria, Lisboa; a China Three Gorges, com a EDP, para o SNS; a Tencent escolheu o mesmo destinatário; o empresário Zhu Qi também; a empresa CNYT e o empresário Michael Lee doaram para a Câmara Municipal do Porto; tal como o empresário Lin Rui Da; a Zhejiang TV doou à RTP; a empresária Lu, proprietária da Quinta da Marmeleira, doou à Câmara Municipal do Porto e ao SNS; a Shanghai Jiaotong University doou à Universidade de Lisboa; a University of Electronic Science fez o mesmo; o empresário John Zha fez uma doação para Viseu; a Chinese Academy of Social Sciences para a Universidade de Coimbra; a Huwaei para o SNS; a empresária Rachel Siu também; e a embaixada da China em Portugal doou para a Câmara Municipal de São João da Madeira. A lista é parcial, frisa ao PÚBLICO um diplomata que acompanha o dossier, mas representa “vários aviões cheios de material e vários milhões de euros de doações”.

Segundo a embaixada da China em Portugal, em declarações ao PÚBLICO, as doações que “já chegaram ou estão a chegar a Portugal” incluem 942 mil máscaras cirúrgicas, 255 mil máscaras N95, 603 mil pares de luvas médicas, 120 mil viseiras de protecção, 37.450 fatos de protecção, 13.500 óculos, cinco mil kits de teste de ácido nucleico, mais de 100 ventiladores e dez sistemas de vídeo.

Generosidade espontânea? Quando falamos de chineses, há a generosidade entre as pessoas: se um chinês vê o amigo em dificuldade, faz sacrifícios inimagináveis no Ocidente para o ajudar”, diz ao PÚBLICO Pedro Catarino, Representante da República para a Região Autónoma dos Açores, que foi embaixador de Portugal em Pequim (1997-2002), chefe da parte portuguesa no Grupo de Ligação Conjunto Luso-Chinês sobre o futuro de Macau (1989-1992) e cônsul-geral em Hong Kong (1979-1982), tendo hoje como hobby enriquecer a sua biblioteca sobre a China. “Mas no contexto actual, esta é uma generosidade calculada, para não dizer interesseira. O interesse da China é sempre criar um ambiente favorável para os seus negócios. Agora e no futuro.”

A estratégia política chinesa para a pandemia da covid-19 “é uma questão absolutamente crucial” para o regime do Presidente Xi, sublinha Carlos Gaspar, investigador do IPRI e durante anos conselheiro político no Palácio de Belém. Não só para “contrabalançar o impacto negativo” do início da pandemia — a China começou por esconder a crise e até castigou o médico que fez os primeiros alertas —, mas também para “conter as tendências muito fortes nos Estados Unidos e na Europa de se cortar as amarras às cadeias de produção chinesas”.

A 1 Fevereiro, a China produzia 20 milhões de máscaras faciais por dia, metade da produção mundial, e a 1 de Março já produzia 110 milhões por dia, um aumento de 450%. São várias as empresas que mudaram de ramo da noite para o dia: os fabricantes de carros eléctricos BYD, a SAIC-GM-Wuling (joint venture com a General Motors), a Foxconn (que montava telemóveis da Apple) e a petrolífera Sinopec (China Petrochemical Corporation), a maior refinaria do país, passaram a produzir máscaras. Um diplomata chama a estas notícias fait-divers e sublinha que são casos pontuais. “Não vi uma viragem da indústria”, diz. “A China não está sequer a ter capacidade de resposta para todas as encomendas e não creio que esteja a acumular stocks.”

Fait-divers ou não, as máscaras são só emblemáticas. A dependência mundial em relação à China abrange muitos outros produtos, da tecnologia à saúde em tempos normais. No livro Fear: Trump in the White House, de Bob Woodward, é descrita uma conversa na qual Gary Cohn, então conselheiro do Presidente Donald Trump para os assuntos económicos, defende que os EUA não devem entrar em guerra comercial com a China e um dos argumentos que usa é um estudo do Departamento do Comércio que diz que 97% dos antibióticos consumidos nos EUA vêm da China. “Se fores a China e quiseres mesmo destruir-nos, basta não enviares antibióticos”, diz Cohn ao Presidente Trump.

Na mesma linha, 65% dos princípios activos usados em medicamentos na União Europeia são comprados à China e à Índia e, só em França, essa percentagem sobe para 60% a 80%. Ao mesmo tempo, segundo o Council on Foreign Relations, várias empresas indianas lideram o mercado dos princípios activos farmacêuticos, mas também elas dependem da China: três quartos dos princípios activos usados na Índia são importados da China. A razão é simples: são 35% a 40% mais baratos do que os que são feitos na Índia.

“A deslocalização levou a esta triste realidade: para o consumidor final, os produtos são mais baratos, mas agora constatamos que a China é mesmo a fábrica do mundo e não estamos a gostar de perceber isso”, diz um diplomata que pediu para não ser identificado. “Até a Suíça, onde estão as sedes dos grandes laboratórios farmacêuticos, tem de comprar reagentes à China.”

A seguir à pandemia, antecipam vários diplomatas, o debate da “reindustrialização da Europa” e do “repatriamento da indústria” vai ter de ser feito. A deslocalização das indústrias da China pode ter vantagens, como a redução dos custos de transporte, tempo de distribuição, menos poluição produzida e os custos de armazenamento. “Mas é uma discussão difícil, porque os custos são altos”, diz um diplomata. “Há anos que preferimos comprar mais barato em vez de alimentarmos os mercados internos.”

Especulação de preços

Baratas, as máscaras faciais já não são. Um empresário português que conhece a China há 40 anos contou ao PÚBLICO que máscaras cirúrgicas que, antes da pandemia, custavam 10 cêntimos a unidade estão a ser vendidas por 50 cêntimos. “A especulação não é um valor muito confuciano”, diz o embaixador Catarino. “E não revela um pensamento a longo prazo, que é a tradição chinesa: quais são os efeitos daqui a 100 ou 200 anos? Esta era uma oportunidade para a China mostrar a sua magnanimidade, fazer um gesto e não abusar da sua posição no mercado.”

Mesmo a palavra “doação” deve ser posta em causa, propõe o empresário. “A China dá, mas não lhe custa nada: o que é doado tem na verdade custo zero, porque os fabricantes que doam estão a vender os mesmos produtos a preços cinco ou dez vezes mais altos”. O mesmo empresário não ficaria surpreendido se existissem instruções do governo de Pequim para as empresas porem de lado 5% ou 10% da produção para ser oferecida como doação ao estrangeiro e reforçar o poder do soft power chinês. “Não sei se isso existirá”, diz Catarino, “mas não me admirava que houvesse algum tipo de indicação nesse sentido”.

O que diz Pequim? “Isso não tem fundamento, porque não é verdade”, responde ao PÚBLICO o porta-voz da embaixada da China em Portugal, num português fluente. “Enfrentamos a mesma pressão de materiais médicos por causa da possibilidade de uma segunda vaga da epidemia” e, mesmo assim, “a parte chinesa acelerou a produção dos materiais para satisfazer a procura da comunidade internacional”. O aumento dos preços é natural, diz o diplomata chinês, “porque há um aumento de procura”. De qualquer modo, “na circulação dos produtos relacionados com o combate à pandemia, a parte chinesa é apenas um elo na cadeia global de produção e abastecimento”. A China “espera que o preço dos produtos relevantes possa ser controlado”, mas “a decisão do preço não compete só à parte chinesa”. O diplomata dá a produção de ventiladores como exemplo: “As peças cruciais utilizadas na China para produzir ventiladores vêm da Europa, em particular da Suécia. E os preços dessas peças também aumentaram.” Há anos que o mal-estar entre a China e a Suécia é sério e público. Gui Minhai, cidadão sueco nascido na China, foi um dos cinco editores e livreiros de Hong Kong que desapareceram em 2015 depois de terem publicado livros críticos do regime chinês. Quando, em Novembro, a associação de escritores PEN Suécia anunciou que ia atribuir-lhe o Prémio Tucholsky, para escritores e editores no exílio ou que vivem sob ameaça, a China disse publicamente que o país iria “sofrer consequências”.

A especulação dos preços não perturba todos por igual. “Apesar de ser um pouco macabro que ganhem à custa de uma epidemia que surgiu na própria China”, diz um diplomata português reformado, “isso é o que me incomoda menos”. É aliás apenas um dos problemas da operação. Há relatos de que os médicos chineses enviados para Itália causaram choque por terem criticado de forma rude os métodos de trabalho italianos; há denúncias de má qualidade de produtos vendidos, como os testes comprados por Espanha que não funcionam bem ou as máscaras em Itália que foram para o lixo, e há atrasos nas entregas de equipamento comprado e pago à cabeça, como aconteceu com 500 ventiladores comprados por Portugal.

Além disso, há desafios de outro nível, como o que Macron colocou em cima da mesa ao propor esta semana, antes de reunir com o G20, uma moratória da dívida dos países africanos para lhes “dar oxigénio” para enfrentar a pandemia da covid-19. “Devemos absolutamente ajudar a África a sair disto. É um dever moral, humano, para África e para nós”, disse o Presidente francês numa entrevista à RFI. Remata um diplomata: “Se quiserem ser bonzinhos, têm aqui uma boa oportunidade.”

É estratégia de Pequim?

Há quem ache tudo isto mero cinismo e sublinhe que a China faz como os outros: “Todos os países são sensíveis à sua imagem e querem projectar uma ideia benévola. Por isso, os cronistas da História são sempre contratados pelo rei e imperador, já era assim com os imperadores romanos. Não é uma originalidade da China”, diz um diplomata veterano. “A China luta permanentemente pela imagem. A pandemia não é um ponto de viragem.”

“Um problema com que o Ocidente se depara nos negócios com a China é o facto de não haver uma separação nítida entre as actividades privadas e públicas, as fronteiras não são visíveis, há uma grande interpenetração”, explica o embaixador Catarino. “A China tem uma organização muito sui generis e não podemos esquecer que é uma sociedade hierarquizada, na qual as ordens vêm de cima e têm de ser obedecidas. Estas doações não serão feitas por ordem directa do Presidente Xi, mas estão seguramente em consonância com a posição oficial.”

Quão sui generis? O empresário dá um exemplo: “O Código Comercial chinês estipula que todas as empresas com mais de 50 funcionários têm de ter um delegado do Partido Comunista Chinês. No fim, é ele quem manda na empresa.”

O professor e investigador Carlos Gaspar sublinha que “não há nenhuma estratégia importante do Estado chinês, em domínios internos ou internacionais, sem o selo de aprovação do Presidente Xi. Isso é indispensável. A China é um Estado hierárquico e centralizado numa única pessoa”. Isso não significa que Xi tenha dado instruções taxativas sobre doações, mas haverá “indicações gerais do que deve ser feito”, diz um alto quadro do Ministério dos Negócios Estrangeiros português. Essas ideias gerais ou até vagas “vão sendo decantadas ao nível administrativo até chegarem aos comités dos bairros”, diz outro diplomata, que descreve o processo como “biunívoco” — as ordens saem de cima, vão sendo aplicadas e, perante a sua concretização, são dadas novas ordens de correcção, numa “peculiar desorganização organizada”.

“As doações fazem parte de uma campanha internacional para apresentar a China como parte da solução”, diz o mesmo diplomata. A doação que chegou esta sexta-feira a Colombo foi noticiada pela agência de notícias oficial do Governo chinês, a Xinhua, deste modo: “Um novo lote de assistência médica doada pela China chegou ao Aeroporto Internacional de Bandaranaike, uma vez que o governo da China e o seu povo estão firmemente ao lado do Sri Lanka na batalha contra a pandemia da covid-19.” O pacote inclui 20 mil kits de testes, 10 mil máscaras N-95, 100 mil máscaras cirúrgicas, 10 fatos, mil óculos e 50 mil luvas, transportadas num voo da Chinese Eastern Airlines. A seguir, a notícia da Xinhua informa que “a embaixada disse que o avião partiu de Xangai sem passageiros, mas cheio de materiais médicos, além de amor e solidariedade da China para o Sri Lanka”. E no fim conclui: “O primeiro-ministro Mahinda Rajapaksa, em recente declaração na sua conta no Twitter, agradeceu ao Governo chinês pela assistência continuada na batalha contra o coronavírus e também à Chinese Eastern Airlines por transportar os pacotes de socorro.”

Uma pesquisa no site da Xinhua revela que, só nas últimas horas, chegaram donativos chineses à Cidade do Cabo, na África do Sul, ao Brunei, à Eslováquia e ao Botswana. Aos Açores chegou também, na sexta-feira, um segundo carregamento com 272 metros cúbicos de material médico vindo da China, mas com uma diferença. “Foi tudo comprado”, disse ao PÚBLICO o assessor para as relações externas do Presidente da região autónoma, Vasco Cordeiro. O governo açoriano comprou o material à Ars&Civitas, na China, através da mediação de Charles de Rosen, um consultor de Londres, e fez o investimento (9,3 milhões de euros em material e um milhão nos voos), depois de “ter batido às portas dos fornecedores habituais na Europa” e ter “percebido que só a China é que era capaz de dar resposta”. Ficou satisfeito com os preços conseguidos: 12 cêntimos por máscara cirúrgica, três euros por máscara FFP2 e 6,5 euros pelas FFP3.

Doações versus vendas?

No início da semana, o PÚBLICO pediu ao governo português os valores totais (quantidades e custo) das doações da China a Portugal e das compras do Estado português à China de material de combate à pandemia, mas não recebeu os dados. Por escrito, Eurico Brilhante Dias, o secretário de Estado da Internacionalização que está a coordenar as operações das compras e das doações, disse que, “até ao momento, o Ministério dos Negócios Estrangeiros deu apoio a mais de 20 voos, com origens distintas na República Popular da China, fretados pelo Estado ou por operadores privados, sempre que transportem carga que se destine ao SNS. Os cinco voos fretados pelo Estado são aproximadamente de 800 metros cúbicos”, mas nesses voos vêm aquisições da China e doações, não apenas doações.

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