Como é que a China está a antecipar a resolução do seu maior obstáculo – a queda da população ativa – a tornar-se a maior economia mundial? A resposta é simples: através da robótica, com robôs humanoides. Num artigo publicado no Financial Times e intitulado “Robot nation: China’s bid to beat its demographic decline”, são dadas algumas pistas sobre o que o gigante asiático já tem em curso para travar a diminuição da população ativa – e, spoiler alert, não passa apenas por aumentar o limite do número de filhos. Mas e o resto do mundo, que enfrenta também problemas demográficos, nomeadamente a Europa, que tem das populações mais envelhecidas do mundo? Não só do suposto gigante adormecido, nome dado à China por Napoleão Bonaparte, mas também do velho continente falaremos nesta edição do INESC TECWatch, dedicada ao admirável mundo novo da robótica.
Primeiro, um pouco de História
Decorria o início da década de 1980 quando o Partido Comunista Chinês implementou a famosa política do filho único. Na altura, o objetivo era travar a explosão demográfica da China, mas, décadas depois, os efeitos fazem-se sentir. Facto é que em 2016 a política foi alargada a dois filhos e, em 2021, o limite de filhos foi novamente alargado, agora para três. A razão? O envelhecimento acelerado da população – que é visto como um dos mais rápidos do mundo -, refletido, naturalmente, na diminuição da população ativa.
A população ativa da China – ou seja, o número de pessoas com idades compreendidas entre os 15 e os 64 anos – atingiu o pico de mil milhões de pessoas na última década. Só que, de acordo com a ONU, até 2100 esse número deverá cair para apenas 300 milhões de pessoas e esse está a ser considerado o maior obstáculo económico da China, aquele que pode impedir o país de se tornar a maior economia mundial.
A resposta de Pequim
Pequim vê a chamada “inteligência artificial incorporada” – embodied AI – como uma das formas de contornar a armadilha geográfica em que se encontram. Em 2024, a China já tinha instalado mais robôs industriais do que o resto do mundo todo junto. Para além disso, é também a maior produtora mundial de robôs humanoides. Segundo estimativas da Morgan Stanley, a China representou 90% dos 13 a 16 mil robôs humanoides enviados globalmente no último ano, com uma previsão de vendas domésticas a subir para cerca de 50 mil unidades em 2026.
Existe, aliás, um fundo estatal para, ao longo de 20 anos, criarem forças produtivas e – espante-se -, nessas novas forças encontra-se a robótica. A meta anual da China está na instalação de, pelo menos, 10 mil robôs de IA em ambientes comerciais.
Mas Manuel Silva, investigador do INESC TEC, onde coordena a área de robótica industrial, alerta aqui para uma série de dados importantes. Primeiro, a tendência para o crescimento acelerado da instalação de robôs na China não é algo que tenha surgido “agora”, mas sim alvo de report em sucessivos relatórios da Federação Internacional de Robótica (IFR) (https://ifr.org/wr-industrial-robots/ ). Depois, “a instalação de robôs industriais está muito ligada à base industrial de um país e, dado que «a China é a fábrica do mundo», terá nos próximos tempos, até pela sua dimensão, uma predominância no volume total de instalações anuais de robôs industriais. No entanto, analisando o número de robôs por 10 mil trabalhadores (métrica habitualmente designada por densidade de robôs), verifica-se que os países mais bem colocados neste índice são Singapura e a República da Coreia, com a China em 3º lugar, mas muito atrás, e não muito à frente da Alemanha e Japão”, explica Manuel Silva, citando novamente relatórios da IFR que, entretanto, sofreram atualizações recentes e já colocam, através dos novos dados laborais chineses, a China em 22º lugar mundial, com 166 robôs por 10 mil trabalhadores.
Marcelo Petry, investigador do INESC TEC na área de robótica industrial, reforça esta posição, explicando que “esta tendência não deve ser lida apenas como “a China instalou mais robôs”. Deve ser lida como uma estratégia industrial: a China está a automatizar a sua base produtiva e, ao mesmo tempo, a reforçar a sua própria indústria de robótica. Em 2024, pela primeira vez, os fabricantes chineses venderam mais robôs no mercado doméstico do que os fornecedores estrangeiros, com uma quota de 57%. Isto significa que a China já não está apenas a consumir automação; está a construir a cadeia de valor da automação”. O investigador cita também o IFR aqui, particularmente este artigo: https://ifr.org/ifr-press-releases/news/global-robot-demand-in-factories-doubles-over-10-years.
Estão os humanoides já prontos a substituir-nos? Ou são eles a “fronteira da robótica”?
O artigo do Financial Times fala dos humanoides como a “fronteira da robótica”, mas dá exemplos de vários casos de empresas com grande sucesso na China nesta área. Primeiro exemplo, a Sany, uma empresa fabricante de camiões, que já automatizou grande parte da produção e agora está a tentar automatizar a fase de montagem final através de robôs humanoides. Outro exemplo, a Huazhu, um grande operador hoteleiro, que usa robôs para tratar de tarefas como bagagem, entregas e limpezas, reduzindo, assim, o rácio de pessoal por quarto de hotel para níveis muito abaixo da média do setor. A JD.com, outro exemplo citado no artigo, teve o seu CEO a admitir que os robôs vão, mais cedo ou mais tarde, substituir os 700 mil trabalhadores de entrega da empresa e já assinou contratos com 120 escolas para requalificar trabalhadores. Na área da cerâmica, o exemplo citado é da Dongpeng Holdings, que reduziu a sua força de trabalho em 40% e aumentou a produção em 32% desde 2021, graças à automação
Estão então os humanoides prontos a substituir-nos? O debate ainda é longo nesta área. Os exemplos citados mostram-nos, por um lado, que já há casos em que empresas estão a apostar mais na automação e a diminuir a força de trabalho, mas há quem defenda que isso não se pode aplicar a qualquer tarefa.
O artigo do Financial Times cita alguns especialistas de empresas – como a AI2 Robotics ou a Li Gong Industry -, que concordam que os humanoides ainda não são bons em tarefas “demasiado fáceis” – como, por exemplo, tarefas repetitivas em contexto industrial – nem “demasiado difíceis” – como, por exemplo, ambientes não estruturados, como as casas das pessoas.
Outra questão apontada é a falta de dezenas de milhões de horas de dados de treino para os humanoides atingirem um verdadeiro salto de qualidade. Mas já estão a surgir modelos de negócio baseados em software/licenciamento de competências, como, por exemplo, “alugar” a perícia de um chef de cozinha através de um humanoide, através de uma taxa.
De acordo com os investigadores do INESC TEC, há uma diferença grande entre robô industrial e robô humanoide.
“Atualmente ainda não existem aplicações concretas na indústria de robôs humanoides – estamos muito perto de lá chegar, mas a realidade dos vídeos promocionais no YouTube é muito diferente da realidade no chão de fábrica. A grande vantagem dos humanoides é que permitem estender o conceito de manipulador móvel (um sistema que permite fazer a manipulação em diferentes locais, porque assenta numa base móvel que se pode deslocar) para terrenos irregulares ou desenvolvidos para humanos, por exemplo com escadas, onde os sistemas tradicionais, que se baseiam em rodas, não conseguem manobrar. Adicionalmente, os humanoides, como partilham a forma e, em certa medida, as dimensões dos humanos, estão também mais bem preparados para efetuar a substituição direta de humanos nos postos de trabalho, assim que as suas capacidades de autonomia o permitam”, explica Manuel Silva, que é também docente no Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP).
E qual o posicionamento do INESC TEC no que diz respeito aos humanoides?
“O INESC TEC está a posicionar-se como desenvolvedor de aplicações para que os robôs humanoides sejam capazes de realizar tarefas nas áreas industriais e de serviços. Nós não temos capacidade de competir ao nível da produção do hardware, mas estamos muito bem posicionados, fruto do conhecimento interno em algoritmos de localização e navegação para robôs móveis, aplicações de visão por computador e sensorização, aplicações de manipulação, etc., para desenvolver aplicações inovadoras que permitam a utilização destes equipamentos (que são vendidos sem essas capacidades) em aplicações concretas no chão de fábrica. Estou em crer que as primeiras aplicações de robôs humanoides ao nível das empresas nacionais vão ter a mão do INESC TEC”, explica Manuel Silva.
Marcelo Petry reforça esta posição: “O INESC TEC não está, nem deve estar, a tentar competir com os grandes fabricantes internacionais na produção de hardware humanoide. Essa é uma corrida de capital intensivo, dependente de cadeias de fornecimento, atuadores, baterias, eletrónica, produção mecânica e escala industrial. Onde o INESC TEC pode estar verdadeiramente na fronteira é no que transforma um humanoide de uma plataforma genérica num sistema útil: perceção, navegação, manipulação, segurança, interação humano-robô, aprendizagem a partir de demonstração, integração com sistemas industriais e validação em ambiente real. Isto encaixa muito bem no posicionamento atual do INESC TEC. O Instituto afirma uma abordagem prática “da conceção à implantação”, trabalhando em navegação e localização de robôs móveis, visão industrial 2D/3D, deteção avançada, robótica industrial e colaborativa e interfaces humano-robô. Aliás, nas infraestruturas de investigação do INESC TEC, trabalhamos em soluções robóticas cognitivas, sensíveis, colaborativas e seguras para aplicações industriais, incluindo visão artificial, robótica colaborativa e interfaces avançadas homem-máquina. Portanto, eu diria que seremos consumidores do hardware, mas produtores da inteligência aplicada, das metodologias de integração e das primeiras aplicações industriais realistas. Essa é uma posição muito relevante: os humanoides são vendidos como plataformas, mas o valor económico surge quando alguém os consegue pôr a executar tarefas concretas, de forma segura e repetível, num chão de fábrica real. E é precisamente aí que o INESC TEC pode ter um papel diferenciador”.
“Os humanos ficam fatigados, mas a IA não”.
O artigo do Financial Times cita um empresário chinês que utiliza este argumento como lógica para automatizar.
Manuel Silva explica que “tradicionalmente os robôs têm sido adotados em ambientes que são 4D: dirty, dull, dangerous, dumb. Acredito que os humanoides também vão seguir esta lógica, de começar a sua aplicação na substituição de trabalho humano em ambientes que cumprem, pelo menos, um destes critérios. No entanto, com o desenvolvimento das suas capacidades, vão começar a ser utilizados em mais áreas, fruto da dificuldade em recrutar mão-de-obra humana para a sua realização, quer pela inexistência de pessoas com as capacidades necessárias, quer pelo seu «preço». Na realização dessas tarefas, os sistemas de embodied IA ou physical IA (robôs com inteligência artificial) apresentam a vantagem de conseguirem trabalhar 24 / 24 horas, 365 dias por ano (a menos das necessidades de intervenção para manutenção) pelo que as empresas acabam por procurar tirar o máximo partido dessa caraterística. Acresce que, atualmente, estes sistemas robóticos são ainda mais lentos do que os humanos na realização da maioria das tarefas, pelo que uma forma de justificar o investimento nestes equipamentos é pela sua maior utilização”.
Luís Freitas Rocha, que juntamente com Manuel Silva coordena a área da robótica industrial no INESC TEC, acrescenta, “no entanto, a capacidade de trabalhar sem descanso não deve ser o principal motivo para a automação. Os humanos possuem capacidades únicas e extremamente relevantes, como a resolução de problemas complexos, a adaptabilidade a situações imprevistas, a interpretação de contextos e a elevada destreza física e cognitiva, superando, em muitas situações, os sistemas de automação existentes. Assim, a automação não deve ser vista exclusivamente como substituição direta do trabalho humano, mas também como uma oportunidade de complementaridade. A verdadeira vantagem competitiva está na sua combinação.”
Onde se posiciona a Europa? E Portugal?
“A Europa está na corrida, mas numa corrida diferente. Não consegue competir com a China em escala, mas tem ainda posições muito fortes em automação avançada, integração, qualidade, segurança, robótica colaborativa e aplicações industriais de alto valor. A densidade robótica da UE é superior à média mundial, e países como Alemanha, Suécia, Dinamarca, Eslovénia, Itália, França e Espanha continuam entre os mais automatizados. O problema europeu não é ausência de competência; é a velocidade de adoção, sobretudo nas PME”, explica Marcelo Petry, suportando-se de mais um artigo do IFR que corrobora o que descreve – https://ifr.org/ifr-press-releases/news/robot-density-surges-in-europe-asia-and-americas.
E Portugal? Manuel Silva explica que existem poucos dados e pouco fiáveis sobre o número de instalações de robôs industriais em Portugal. Ainda assim, Portugal está claramente para trás nestes indicadores, “o que se deve também à muita dependência da indústria nacional de mão-de-obra barata e às caraterísticas da nossa indústria”, explica.
Já Marcelo Petry considera que “não estamos fora da corrida, mas ainda não estamos a correr à mesma velocidade. Temos conhecimento científico, centros tecnológicos, empresas integradoras e casos industriais interessantes; o que nos falta é escala de adoção. A indústria portuguesa ainda é muito composta por PME, muitas vezes com margens apertadas, produção variável e menor capacidade de investimento. Isso torna a robotização mais difícil, não para substituir simplesmente pessoas, mas para aumentar produtividade, qualidade, rastreabilidade e capacidade de competir em cadeias de valor internacionais”.
Quando questionados sobre quem deve liderar esta transição em Portugal – Estado, empresas, RTOs (Research and Technology Organisations) como o INESC TEC, universidades? -, os investigadores admitem que essa é a questão mais difícil de responder.
Manuel Silva afirma: “não me parece que esta transição seja possível se não houver uma articulação e envolvimento entre todos os implicados. Por começar, os RTOs serão, como habitualmente, dos que primeiro vão divulgar estas tecnologias e as suas possíveis aplicações. No entanto, só isto não chega – para que estas “revolução” se concretize é preciso que estes desenvolvimentos iniciais, começados nos RTOs sejam passados para as empresas. As empresas também terão de avançar, até por causa da concorrência que vão sentir das suas congéneres estrangeiras, se não se adaptarem correrão o risco de ficarem para trás. Por último, o Estado terá também de intervir porque esta transição vai impor mudanças societais, quanto mais não seja a nível da forma como o trabalho é realizado, mas também a nível de questões como a sustentabilidade da segurança social (aspeto também abortado no artigo do FT).”
Marcelo Petry tem visão semelhante: “na minha opinião cada ator do ecossistema tem uma função. O Estado deve criar condições: financiamento, incentivos fiscais, instrumentos de demonstração, regulação, formação e políticas públicas que evitem que a automação aprofunde desigualdades; as empresas têm de assumir o risco da adoção e perceber que robotizar não é comprar uma máquina, é redesenhar processos; as universidades devem formar talento e produzir conhecimento; e os RTOs, como o INESC TEC, devem fazer a ponte entre ciência e aplicação: demonstrar, testar, adaptar, reduzir risco tecnológico e transferir soluções para o mercado. Em Portugal, isto é particularmente importante porque muitas empresas não têm dimensão para fazer esta transição sozinhas. Precisam de acesso a pilotos, demonstrações, casos de uso, apoio técnico e modelos de retorno do investimento. É aqui que os RTOs podem ser decisivos: ajudam a transformar uma tecnologia emergente numa solução industrial concreta. A nível europeu, a própria visão de Indústria 5.0 vai nesse sentido: não basta automatizar para produzir mais; é preciso uma indústria centrada nas pessoas, sustentável e resiliente. A estratégia europeia de AI Factories também aponta para ecossistemas que ligam computação, dados, talento, universidades, PME, indústria e financiamento”.
Os riscos sociais e políticos
A aceleração do desenvolvimento tecnológico já não é ficção científica e entusiasma muitos, mas pode trazer uma série de riscos sociais e políticos. Tal como na década de 80 do século XX, a política do filho único parecia ser a única solução para travar a explosão demográfica chinesa, a China agora parece apontar a explosão da robótica e da IA como a derradeira solução para inverter esse ciclo. Mas e o risco de desemprego em massa, especialmente entre jovens licenciados? Não deveria este grupo, em particular, carecer de maior atenção, já que preocupa particularmente o governo chinês por razões de estabilidade social?
Para o caso português, os investigadores do INESC TEC já apontaram algumas ideias para a liderança desta transição. No caso da China, há académicos chineses a proporem reformas fiscais, que vão desde redução de taxas de IRS, ao aumento de impostos às empresas que podem, aliás, passar por taxar robôs, e a pedirem um reforço da requalificação profissional. O governo chinês já pediu, em documento oficial, um sistema de “alerta precoce” para riscos de emprego ligados à IA. Na China, já nove universidades lançaram licenciaturas em IA este ano, mas nem todos os trabalhadores estão convencidos. Houve, aliás, protestos por parte de taxistas, em Shenzhen, contra a expensão de táxis autónomos.
Apesar dos riscos sociais, espera-se que Pequim não abrande a corrida tecnológica, dada a prioridade estratégica na competição com os EUA por supremacia tecnológica. Só que, para isso aconteça, Pequim terá de se apoiar no forte aparelho de vigilância do Estado para gerir tensões sociais. Sobre isto poderíamos escrever outro Watch, mas as nossas rubricas centram-se nas questões ligadas à investigação e à inovação, pelo que fica a deixa para instituições com investigadores nessas áreas.
Fonte: BIP InescTec Magazine




