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Sectores do turismo e têxteis de Macau podem sofrer com tarifas americanas

Sectores do turismo e têxteis de Macau podem sofrer com tarifas americanas
Publicado em 9 Abril, 2025
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Macau não deverá ficar imune ao conflito comercial entre os EUA e a China, mas ainda é cedo para se tirarem conclusões. Esta é a convicção de alguns especialistas em economia e comércio. As tarifas alfandegárias impostas pela administração Trump poderão significar “riscos directos ou indirectos” para a RAEM, “em particular no turismo, no investimento externo e na logística dos negócios”, disse ao Jornal TRIBIUNA DE MACAU António Félix Pontes. José Luís de Sales Marques considera que, embora “não se possa dizer que o impacto será grande, vai, com certeza, afectar a pouca indústria têxtil que Macau ainda possui”. José Isaac Duarte, por seu lado, refere que “o problema é a incerteza criada”. Já Bernardo Mendia admite poder ainda existir a possibilidade de os EUA reverterem as tarifas, ou parte delas, “na sequência de eventuais concessões de outros países ou efeitos mais nefastos do que os inicialmente previstos” por Donald Trump.

O anúncio da aplicação de taxas alfandegárias globais por parte da administração Trump e a consequente resposta da China, que decidiu impor uma tarifa de 34% sobre as importações de todos os produtos dos EUA a partir da próxima quinta-feira, 10 de Abril, agravaram as reacções negativas nos mercados internacionais, depois das bolsas já terem reflectido nos últimos dias as preocupações sobre a escalada na guerra comercial. Macau não foi incluído numa extensa lista de países ou regiões onde as tarifas norte-americanas serão aplicadas, mas, directa ou indirectamente, poderá sofrer consequências.

António Félix Pontes disse ao Jornal TRIBUNA DE MACAU que Macau não ficará imune ao conflito comercial, pois faz parte integrante da China. “Embora a RAEM não seja um centro de produção de bens, os Estados Unidos são dos seus principais parceiros comerciais e, inevitavelmente, surgirão diversos riscos, directos e indirectos, em particular, no turismo, no investimento externo e na logística dos negócios”, antevê.

Assim, o economista salienta que Macau “irá defrontar-se com diversas consequências”, destacando algumas como o “impacto económico nos esforços relacionados, por um lado, com o comércio, devido às tensões comerciais entre a China e o Estado americano e, por outro, na diversificação económica, induzindo a que se confira uma maior aceleração efectiva neste domínio”.

A estes possíveis reflexos, poderão igualmente juntar-se “riscos para a indústria do turismo, com a redução do número de visitantes – se houver recessão económica -, e também no investimento do exterior, devido à incerteza que já se faz sentir nos mercados de capitais”.

José Isaac Duarte, por seu turno, diz que as exportações e importações de Macau para os EUA não são muito significativas, por isso encara a questão “mais pelo efeito que possa ter na China, no mercado chinês, e nos clientes de Macau”.

O economista considera que “tudo está ainda muito incipiente e ninguém percebeu muito bem em que jogo é que estamos”. “É muito prematuro fazer grandes previsões”, afirma, advertindo, contudo, que “a continuarmos nesta tendência, isso pode ter consequências sobre o nível de actividade da economia chinesa”.

Como Macau depende “muito do que vem da China, se os investidores tiverem apertos de rendimento ou incertezas, é natural que isso tenha um impacto sobre os nossos fundos de turismo e receitas associadas”, sublinha.

Segundo Isaac Duarte, “a China tem um excedente comercial com os Estados Unidos, portanto, está muito jogo em aberto”. “Vamos ver como é que as coisas evoluem nos próximos dias”, acrescentou, referindo que o problema é a incerteza criada.

“Independentemente da evolução que tenha nos preços a curto prazo, a incerteza tende a levar as pessoas a inibir-se no consumo e no investimento e, portanto, isso em si mesmo tem consequências”, reiterou.

Diversos especialistas falam já numa possível recessão económica a nível global. Isaac Duarte assume que “se houver recessão, temos de aguentá-la como aguentámos as outras”, sendo que “Macau tem a sorte de ter tido durante estes últimos 20 anos, mesmo com altos e baixos, uma tendência global de acumulação, dispondo de uma reserva financeira sem paralelo no mundo”.

O economista diz que “é natural que haja manifestações de preocupação das autoridades, mas não somos seguramente os mais mal colocados no mundo para sobreviver a mais uma recessão”.

Relativamente à não inclusão de Macau na lista de países ou regiões afectados pelas tarifas, Isaac Duarte desconhece as razões e questiona se os EUA vão tratar a RAEM como China ou não. “Isso já é outra questão, que também tem de ser clarificada”.

Reconhecendo que há “expectativa e incerteza”, o economista insiste que “essa incerteza em si mesma levará os agentes económicos a retrair-se e isso pode ter alguma consequência”. No entanto, acredita que são necessários mais uns dias para “começar a perceber como se vai consolidar esta situação”.

 

Exportações para EUA “serão afectadas”

Já para José Luís de Sales Marques, as tarifas punitivas que a administração Trump acaba de impor às importações de mercadorias de todo o mundo para os EUA são, “em princípio, extensíveis a Macau”. A taxa de 54% sobre o valor aplicável às importações provenientes da China “são também aplicáveis a Hong Kong, apesar de o território vizinho ser, como Macau, um território aduaneiro autónomo”, assevera.

Assim, prossegue, “salvo alguma excepção ainda por anunciar, as exportações de Macau para os EUA também serão afectadas”. Para o economista, a balança de mercadorias entre Macau e os EUA é “altamente favorável ao primeiro”, isto é, “Macau importa muito mais do que exporta para aquele mercado”.

A título de exemplo, acrescenta, “a maior fatia das exportações domésticas de Macau para os EUA é composta por artigos de vestuário sob a forma de malhas”, indicando que o valor atingido no ano passado do total de exportações dessa mercadoria foi de cerca de 157 milhões de patacas, representando mais de 90% dessa rubrica.

Assim, destaca Sales Marques, “não podemos dizer que o impacto será grande, mas vai, com certeza, afectar a pouca indústria têxtil que Macau ainda possui”.

No que toca ao conjunto do comércio externo de Macau com os EUA, “o que se verá é que os preços dos produtos importados desse mercado, como sejam os artigos de vestuário e calçado de algumas marcas conhecidas vão subir, porque a cadeia de fornecimentos é multinacional, e tanto matérias primas como produtos intermédios importados também terão os seus preços agravados”. Dito doutra forma, “todos vamos perder”, alerta.

 

Estrutura económica baseada em serviços

Enquanto isto, Bernardo Mendia, secretário-geral da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa, nota que as tarifas prejudicam o mundo inteiro, no curto prazo, incluindo os próprios EUA. “Alguns países serão afectados directamente, nomeadamente a China, que é a fábrica do mundo, mas sucederá o mesmo aos territórios menos industrializados, como a Europa ou Macau, cuja estrutura económica se baseia em serviços, os quais, por sua vez, são tanto mais prestados quanto maior a confiança dos agentes económicos”.

“Infelizmente, após o anúncio da imposição de tarifas, os mercados financeiros sofreram perdas anormais, o que comprova a perda de confiança”, refere, acrescentando que “na realidade, são as pessoas quem mais sofrerá, isto é, cada um de nós, na medida em que à queda da confiança e dos mercados, segue-se uma provável inflação e recessão económica, que sempre afecta mais quem tem menos”.

Bernardo Mendia admite poder ainda existir a possibilidade de Washington reverter as tarifas, ou parte delas, na sequência de eventuais concessões de outros países e/ou efeitos mais nefastos do que os inicialmente previstos pela administração Trump. Nesse cenário, “poderemos ter uma queda da actividade económica mais suave e menos agressiva para as pessoas”.

Para o analista, “no mundo ideal da administração norte-americana, o dólar continuará a ser a divisa de referência do resto do mundo, a China deixará o renminmbi flutuar livremente – ou seja, valorizando a moeda e tornando as suas exportações menos competitivas – e liberalizará ainda o movimento de capitais, enquanto os EUA voltarão a ser uma nação industrializada, assim se corrigindo os desequilíbrios actuais do sistema financeiro global”.

No entanto, considera que “a China não cederá sem contrapartidas compensatórias, ao mesmo tempo que é evidente que o próximo eventual acordo de estabilização do sistema financeiro global passará por uma negociação entre os EUA e a China, talvez sem a participação europeia”.

 

Manter privilégios e benefícios do dólar

Mendia recorda que o Presidente Xi Jinping declarou há vários anos a possibilidade de “alterações não vistas em mais de 100 anos”. “Enquanto isso, o presidente Trump parece querer acelerar essa transição, mas aparentemente sem perceber que a transição necessitava de planeamento e negociação, até porque a América não se industrializará por decreto”, prossegue.

No seu ponto de vista, o que os EUA pretendem é, “provavelmente, manter os privilégios e benefícios da hegemonia do dólar como moeda de reserva, bem como continuar a utilizar o dólar como arma financeira e geopolítica (sanções económicas, swift, impressão de moeda, etc.) e, ao mesmo tempo, os norte-americanos querem reduzir os custos deste sistema, nomeadamente a desindustrialização do seu país e dívida elevada”.

Mendia julga que a China procurará, por seu lado, “ocupar a posição que considera ser sua por mérito próprio e com isso obter o respeito dos seus pares”.

Também numa análise geral à imposição das tarifas por parte dos EUA a uma grande quantidade de países ou regiões, António Félix Pontes entende que a racionalidade subjacente ao estabelecimento dessas tarifas abrange “um conjunto de objectivos económicos, políticos e estratégicos”. As suas principais justificações residem em “proteger as indústrias americanas da competição externa e dar maiores garantias ao emprego doméstico”, assim como “reduzir os desiquilíbrios comerciais, na medida em que a balança comercial de bens dos EUA regista um elevado e preocupante deficitatendendo a que as exportações de produtos desse país têm vindo a ser, historicamente, muito inferiores às importações de bens”.

Por outro lado, prossegue, “pretendem gerar maiores receitas, constituindo as tarifas uma das maiores fontes de receitas do Tesouro americano” e “usar tarifas elevadas como instrumento geopolítico para pressionar certos países a resolverem assuntos de natureza não-comercial, como a imigração”.

A estas justificações, o antigo membro do Conselho de Administração da Autoridade Monetária junta “precedentes ideológicos e históricos” de Donald Trump “o qual terá apresentado, como exemplo, a iniciativa idêntica tomada pelo presidente americano William McKinley, no seu mandato (1897-1901), mas não referindo o então contexto económico e financeiro, que era totalmente diferente, pois não havia ainda impostos sobre os rendimentos”.

Reconhece, no entanto, haver casos “de uma certa justiça na aplicação das tarifas”, apontando situações indicadas por Karoline Leavitt sobre 50% da União Europeia sobre os lacticínios americanos, a tarifa japonesa de 700% sobre o arroz americano e a taxa indiana de 100% sobre os produtos agrícolas americanos.

Consultando a nova tabela, apresentada pelo presidente Trump, e descodificando a fórmula usada para determinar as tarifas “que os outros países, segundo ele, fazem incidir sobre a exportação de produtos americanos”, Félix Pontes atesta que “essa justiça aduaneira deixa de fazer sentido e passa a assumir uma verdadeira e injustificada obsessão tarifária”.

Quanto à fórmula que a nova administração americana usou para indicar a tarifação actual dos outros países aplicada aos produtos americanos, diz que é “tendenciosa, enganadora e manipuladora”, apesar de “aparentemente complexa”, adiantando que se resume em dividir o défice dos EUA em relação a cada país, pelo total das importações americanas desse país e multiplicar por 100. Ora, “esse cálculo apenas dá a conhecer qual a percentagem do défice em relação às importações e não o valor das tarifas”, esclarece.

Dá o exemplo da China, referindo que o défice americano ascendia a 295,4 mil milhões de dólares para um total de importações de produtos chineses de 438,9 mil milhões. “Dividindo estes dois valores e multiplicando por 100, temos os ‘famosos’ 67,3% como o valor da tarifa que Trump afirmou que a China aplica aos produtos americanos que importa, o que não corresponde em nada à realidade, falseando esta de uma forma irresponsável”, sublinha.

 

Aumento dos custos para os consumidores

Reflectindo sobre as possíveis maiores consequências da aplicação das tarifas recíprocas americanas, Félix Pontes destaca, no imediato, “o aumento dos custos para os consumidores, situações de rutura nas cadeias da oferta de produtos e conflitos comerciais, pela aplicação de tarifas retaliatórias, pelo menos, por parte da União Europeia e da China – que já decidiu pela tarifa recíproca de 34%”.

Aponta também haver “elevados riscos de queda abrupta das bolsas, maior volatilidade cambial e desaceleração económica global e prejuízo evidente nas relações diplomáticas entre os EUA e os países afectados”, receando que, a médio-prazo, poderá surgir uma recessão económica.

Aliás, conclui, “na última edição da revista ‘The Economist’, esta considera como ‘Ruinage Day’ (‘Dia da Ruína’) o ‘Liberation Day Tariffs’ (‘Tarifas do Dia da Libertação’), proclamado pelo presidente Trump, a 2 de Abril de 2025 e classifica o novo tarifário comercial americano como ‘o maior erro económico da era moderna’”.

Também sobre as medidas tomadas pela administração Trump, Isaac Duarte atesta que a questão das tarifas “não é puramente económica, mas sim política e, portanto, quando se invoca a reciprocidade, estamos já no domínio da política e não da pura economia”. Salienta que este é “um instrumento claramente utilizado para alterar as regras do jogo no comércio internacional e a posição que a administração norte-americana entende ser de desfavor e de abuso de outros países em relação aos EUA”.

“Diria que isto é mais uma questão política e, portanto, num plano económico, não creio que haja muitos economistas que não reconheçam as vantagens e o interesse da abertura do comércio internacional, sem com isto negar que há muitos países que reclamam ser a favor da liberalização do comércio e, se formos observar com cuidado as suas práticas alfandegárias, a história também é mais complicada do que parece”, vincou.

 

In Jornal Tribuna de Macau