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“Macau é a nossa montra avançada na China”

“Macau é a nossa montra avançada na China”
Publicado em 31 Março, 2023
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Mário de Sousa é o CEO da empresa Portocargo, que faz o transporte internacional de mercadorias e que conta com 39 colaboradores e um volume de negócios de 52 milhões de euros. Em entrevista ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, concedida em Portugal, salienta que trabalha com o mercado de Macau desde 1991 e que tem “vingado nos produtos de qualidade” e “topo de gama”

 

SUSANA MARTINHO*

Qual é o papel da empresa Portocargo?

Nós somos agentes transitários, uma empresa que projecta, organiza e executa soluções logísticas que permitem fazer com que uma mercadoria, um produto, um bem, chegue de um local qualquer do mundo a outro mais distante e o mais imaginável possível. No que toca ao mercado da exportação, o objectivo até há pouco tempo era acabar com as barreiras, para que a transacção pudesse ser livre de um qualquer país para outro. Mas, julgo que já todos percebemos que da globalização estamos a passar para a fragmentação dos países e criação de blocos…

-Há quanto tempo trabalha com Macau?

-Desde 1991. Tenho um grande carinho por ter sido um território administrado por portugueses. Houve uma fase, depois do handover em que a República Popular da China concedeu as licenças para os novos casinos e resorts e em que Macau se transforma e desperta.

 

-E passa a ser finalmente um elo de ligação entre Portugal e a China?

-Macau desperta e transforma-se num mercado interessante para nós e principalmente para os produtos originários de Portugal. É interessante verificar como é que uma comunidade portuguesa tão pequena em Macau que lá ficou, e outros que depois lá entraram, conseguiu transformar o território num espaço que mostrou à República Popular da China a importância da nossa comida e dos nossos produtos, nomeadamente do vinho, do azeite, do queijo, dos enchidos… até água transportamos recentemente de Portugal para Macau. -Água? Porquê? -Porque se vende bem a água portuguesa em Macau, engarrafada como é lógico, da Luso e de outros engarrafadores que existem por aqui. Portanto, nós transportamos contentores e contentores de água, e também de leite. Há um consumo significativo de produtos portugueses, estamos a falar de várias centenas no conjunto, talvez até atingindo para cima do milhar, de contentores por ano de mercadoria de produtos cem por cento portugueses.

-Quanto é que o mercado asiático representa para a vossa empresa? E Macau?

-O mercado asiático representa, talvez, 40-45% do nosso volume de negócios. Macau é importante. Abre-nos portas para vários produtos e os chineses que frequentam Macau vêem, utilizam ou comem os produtos portugueses. Viciam-se neles lá e depois vêm cá buscá-los directamente, muitas vezes nem precisam de passar por Macau, porque o território é tão extenso que vão directamente para os grandes centros e para uma panóplia de províncias com as quais nós temos transacções. Macau é, para nós, a nossa montra avançada na China.

 

-Como é que definiria as relações dentro desta área comercial e da exportação entre Portugal e Macau? Já ultrapassámos o período de tensão e de desconfiança que marcou a pandemia?

-Nós, em termos de operadores económicos quer de Macau, quer portugueses não estamos com esse terror em cima da cabeça, porque hoje os meios de comunicação são tão abundantes que é tão fácil de perceber de que maneira é que o produto está, qual é o tratamento que lhe é dado na origem… Dou-lhe um exemplo: tenho um cliente especial em Macau, que só vende nos resorts de cinco estrelas, e às vezes há produtos que estamos a carregar no armazém, em Portugal, e temos de estar com uma câmara a mostrar-lhe como é que os estamos a posicionar. Até porque há situações em que, se por ventura colocar uma caixa de madeira de vinho em cima de caixas de cartão de vinho, basta que uma garrafa se parta, que destrói os rótulos. O mesmo acontece com o azeite…

-As trocas comerciais entre Portugal e Macau têm vindo a aumentar ou a diminuir?

-Até à pandemia houve um aumento. Até porque no caso dos vinhos e do azeite, são produtos que até há poucas décadas eram desconhecidos no Oriente pela maior parte dos consumidores. O que acontece é que tudo o que seja quantidade nós não temos capacidade para “lá estar”, então temos de apostar naquele nicho talvez dos 10% dos chineses que têm dinheiro, que já dão 130 milhões ou 140 milhões se não forem mais… É um mercado muito apetecível. Então, temos vingado nos produtos de qualidade, ou seja o nosso aumento de volume também tem sido um aumento exponencial em valor. De cada vez que transporto um contentor de vinho para Macau, o valor que vai lá dentro oscila entre os 290 e os 350 mil euros, porque são marcas diferentes, mas topo de gama e de alta qualidade. No caso do presunto, este produto tem de ser transportado com uma temperatura controlada. Desde que sai do local de produção, até que chegue a Macau, não pode haver uma oscilação de temperatura. O grande drama para chegarmos a Macau é que há produtos que não aguentam o tempo de trânsito, portanto têm de ir por avião… e o transporte aéreo é extremamente caro.

-Exportam mais de Portugal para Macau do que de Macau para Portugal?

-Pois, de Macau para Portugal a exportação é praticamente nula. A grande dificuldade, que acontece também nas exportações de Portugal para Macau, é não termos um movimento que permita uma ligação directa. Por exemplo, não podemos vender queijo fresco em Macau, devido ao tempo de trânsito que nós temos para fazer esse queijo chegar de Portugal a Macau, porque ele tem de ir daqui no mínimo a Hong Kong… Já tivemos situações em que teve de ir a Taiwan e Xangai e de Xangai a Macau, o que quer dizer que mesmo por avião o tempo de trânsito é muito longo para a durabilidade própria e qualidade dos produtos.

Quanto tempo, em média, é que demora uma mercadoria a ser transportada de Portugal para Macau?

-Por via marítima, falando no pós-pandemia, infelizmente poderá chegar a 90 dias. Devido aos problemas que existem na gestão logística da cadeia internacional durante e no pós-pandemia, ainda não voltámos à normalidade. E o tempo de trânsito dos navios é maior. Andam mais lentos porque há constrangimentos sistemáticos nos portos principais do mundo. Quando estamos a falar de produtos alimentares normalmente estes têm períodos de validade que expira. Muitas vezes, o tempo de validade gasta-se no percurso, o que não permite sequer a sua comercialização, porque o comprador nem sequer pensa em comprar o produto se está praticamente a atingir o período de validade. Estes são problemas com que nós nos confrontamos e que são invisíveis. É um problema grave com que nos temos deparado nos últimos anos, que diminuiu a nossa capacidade de venda, não porque os nossos produtos deixaram de ser apetecíveis ou porque não somos competitivos e sim pelas dificuldades de gestão da cadeia logística que podem destruir a possibilidade de venda ou compra de produtos.

Fonte: Tribuna de Macau