Loading
Associe-se

Yanbei, o pintor chinês que Portugal inspira

Yanbei, o pintor chinês que Portugal inspira
Publicado em 29 Outubro, 2018
Partilhar

Já pintava na China, além de ter várias empresas de publicidade de sucesso, mas “por causa da poluição em Pequim, que era ainda pior naquele tempo”, quis emigrar, conta Guohui Zhang, cujo nome artístico é Yanbei. O Canadá era o destino escolhido pela família, mas as autoridades de emigração fecharam-lhes as portas. Alguém sugeriu então Portugal como alternativa e em 2013 o pintor chinês aterrou em Lisboa e veio pela primeira vez ao Estoril, onde queria comprar uma casa e candidatar-se ao visto gold.

“Gostei do país. Do que vi. E pensei: nada mau”, relembra o pintor, numa conversa no Centro Científico e Cultural de Macau, na Rua da Junqueira, em Lisboa, onde até fevereiro está patente a exposição Recomeçar, que tem tudo que ver com os quatro anos já de vida em Portugal, que celebra na terça-feira. “Cheguei de vez a 30 de outubro de 2014”, sublinha, traduzido por Hongjia Yu, uma jovem chinesa que está a fazer o doutoramento em Antropologia e em Portugal usa o nome Carlota.

Yanbei nasceu em 1963 em Pingu, que faz parte da Grande Pequim. Os pais eram praticantes de medicina tradicional chinesa mas como a sua infância e adolescência coincidiu em grande parte com a Revolução Cultural lançada por Mao Tsé-tung, a educação mais clássica, incluindo a arte da caligrafia, só começou a receber quase adulto. Antes era uma época na China em que se queria fazer tábua rasa da tradição em nome dos valores revolucionários.

“Muito mudou na China a partir das reformas de 1978”, diz o pintor, referindo-se à política de abertura de Deng Xiaoping, dois anos depois da morte de Mao, o fundador da República Popular da China. Após estudos universitários na capital chinesa, foi professor de artes e jornalista, além de pintor profissional. Mais tarde foi empresário nas áreas da publicidade e da arte ambiental, aproveitando os tempos da economia a crescer 10% ao ano, mas sempre sem deixar a pintura, a sua “grande paixão”.

Essa abertura da China ao mundo, sem o país deixar de ser oficialmente comunista, trouxe tremendo sucesso económico, e além da nova riqueza também o gosto pela arte ocidental. Yanbei começou por pinturas que eram ainda muito influenciadas pelos padrões chineses.“Essa fase chinesa está aqui representada na exposição. Depois vem a fase em que Portugal me influenciou, com as suas cores, a sua alegria. A seguir esta fase mais abstrata. E agora ando a trabalhar neste conceito baseado nas impressões digitais”, explica o pintor, via Carlota, enquanto percorre a exposição. Alguns quadros da fase portuguesa inicial saltam à vista, como o que mostra o Palácio da Pena ou o outro com uma cena de rua em Faro. “Portugal é muito relaxante e as pessoas simpáticas”, diz. A técnica usada nos quadros, essa, é sempre tinta da china e aguarela sobre papel, mas no futuro pondera começar a pintar a óleo.

Yanbei confessa admirar Weiwei, o mais famoso artista chinês da atualidade, pois gosta da sua “preocupação social e da sua simpatia humanista”. E entre os artistas ocidentais, destaca Rembrandt, mas também Van Gogh, Monet, Matisse, Cézanne e Picasso”. E acrescenta que são muitos os chineses cativados pela arte ocidental, como se pode ver pelas compras em leilões e pelos turistas que fazem questão, quando vêm à Europa, de visitar os grandes museus como o Louvre ou o Prado.

Pergunto o significado de Yanbei. É Carlota, que a par do doutoramento na Universidade Nova faz de assistente ao pintor, quem tenta me explicar: “Yan é ganso e Bei é Norte. E é na primavera que o Ganso regressa ao Norte. Recomeça.” E Recomeçar é o título da exposição, também uma homenagem a Portugal. “Tal como Portugal é o país das Descobertas, eu descobri Portugal e a minha arte é agora diferente. Foi um recomeçar”, declara Yanbei. Sobre o sonho canadiano, diz estar resolvido de vez. “As leis de emigração lá mudaram e agora já me aceitavam. Mas estamos muito bem aqui”, diz. Com ele na casa do Estoril vivem a mulher e dois filhos, um de nove e outro de sete, que “falam perfeitamente português”.

Diário de Notícias