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Relações económicas Portugal-China: e depois do vírus?

Relações económicas Portugal-China: e depois do vírus?
Publicado em 20 Maio, 2020
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A Europa tem assistido a uma forte vontade política do governo chinês em abrir gradualmente o seu mercado, oferecendo às empresas estrangeiras um ambiente de negócios mais atrativo.

Em 2019, a economia chinesa atingiu valores na ordem dos 14 triliões de dólares e uma taxa de crescimento de 6,5%. A China assumiu-me como financiadora de diversos projetos de infraestruturas e relacionados com o comércio livre entre diversos países (cerca de 500 biliões de dólares) no âmbito da iniciativa denominada “One Belt, One Road” [“Uma Faixa, Uma Rota].

Muitos destes investimentos, que desejavelmente estarão concluídos este ano, visam intensificar as importações e exportações da China com países que se mostrem mais recetivos a trocas comerciais.

Neste contexto, os países europeus – como Portugal – podem beneficiar em reforçar as relações comerciais com a China, tanto mais mantendo-se inalterada a situação de “Guerra Comercial EUA-China”.

Antecipa-se um aumento do consumo interno na China pós-pandemia (com cerca de 1,4 biliões de consumidores ávidos em retomar os seus hábitos), sendo estratégico para as empresas estrangeiras avaliar a entrada ou o reforço dos seus investimentos na China.

Importa ter consciência dos desafios culturais e estruturais que as empresas podem enfrentar neste mercado.

O primeiro passo para uma entrada eficaz no mercado da China é identificar a localização geográfica e os mercados-alvo. A China tem incentivado a criação de aglomerados industriais em cidades ou regiões específicas, as Free Trade Zones, que se dedicam exclusivamente a um certo tipo de indústria.

Regiões junto ao mar atraem, por regra, mais investimento estrangeiro, já que o nível de rendimento dos consumidores é mais elevado, comparado com os consumidores das zonas interiores do país.

Escolher o veículo societário de entrada na China também é uma das decisões cruciais dos investidores.

Em termos genéricos, as empresas podem optar por uma joint-venture ou por constituir uma empresa detida exclusivamente por capital estrangeiro. Alguns setores podem exigir a constituição de uma empresa local, enquanto outros se bastam com a existência de um escritório de representação.

A decisão irá depender também da avaliação do mercado: se a empresa irá fabricar localmente, importar os seus produtos, o nível das vendas, o apoio técnico exigível pelos clientes e quais os custos de contratação de funcionários locais.

A flexibilidade do investidor estrangeiro será fundamental, seja flexibilidade negocial, seja jurídica, já que as alterações regulamentares podem ser implementadas de um dia para o outro, forçando-o a adaptar a sua estratégia.

Porém, a definição de objetivos globais de investimento é determinante, para que não se desperdicem recursos, nem o investidor ceda a imposições de parceiros locais que podem arruinar a sua estratégia, como por exemplo sucede com distribuidores chineses que exigem exclusividade aos investidores, o que pode impedir no futuro a expansão do seu negócio a diferentes regiões da China.

Concluindo, o surto de coronavírus tem causado uma forte repressão no consumo de bens e serviços em termos globais, mas o contínuo crescimento da economia chinesa e a sua abertura a empresas estrangeiras são fatores a avaliar pelas empresas portuguesas que pretendam ter uma estratégia mais sólida na China. As empresas portuguesas podem beneficiar de oportunidades que surjam nesse mercado após a pandemia.

É expectável que os governos central e local da China continuem a implementar políticas e incentivos para aumentar o PIB do país durante 2020, sendo um bom momento para entrar no mercado chinês. Acresce que a segunda metade do ano será igualmente favorável ao recrutamento de talentos na China a um custo relativamente baixo.

Não existe uma fórmula de sucesso para as empresas estrangeiras abordarem o mercado chinês, devendo cada estratégia ser definida em função do tipo de indústria, produtos, dimensão e cultura da empresa, bem como dos objetivos de negócio a longo prazo.

Saber aproveitar a mudança (e as oportunidades) pode ser a chave do sucesso para entrar num novo e desafiante mercado como o da China.

Fonte: Jornal Económico