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Paciência também é estratégia nos negócios. Chineses decidem juntos e sem pressa

Paciência também é estratégia nos negócios. Chineses decidem juntos e sem pressa
Publicado em 3 Dezembro, 2018
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De Lisboa a Hong Kong são mais de 11 mil quilómetros de distância e oito horas de diferença horária. Desde 2009, já lá vão nove anos, estas são as coordenadas da vida profissional e pessoal de João Marques da Cruz. O administrador executivo da EDP, presidente da EDP Internacional e presidente da Câmara Comércio Luso-Chinesa trocou o Ocidente pelo Oriente e agora já consegue ver com nitidez as “três diferenças essenciais” no estilo de fazer negócios entre empresas e empresários chineses e portugueses.

“A minha experiência pessoal na China é muito positiva”, garante o administrador. Para começar, nas empresas chinesas (e asiáticas, em geral) as decisões são “mais colegiais, mais coletivas, e menos individuais”. Enquanto “nas empresas portuguesas há ainda muito uma lógica de presidencialismo, impensável no Oriente”.

Outra grande diferença, garante, passa pelo tempo de decisão, que muito mais longo e ponderado na China do que na Europa. “Aqui a desvantagem é a falta de flexibilidade”, diz o gestor que já se rendeu aos hábitos chineses. “No entanto, se uma resposta é menos rápida, é mais pensada e mais amadurecida. É mais ponderada mas perde na rapidez e na flexibilidade”.

A estratégia empresarial também não é imune a diferenças significativas. No Ocidente, diz Marques da Cruz, a necessidade de obter resultados no curto prazo é muito maior do que numa empresa chinesa. “As empresas portuguesas são mais reféns dos resultados do curto prazo, pela sua debilidade financeira. Enquanto as empresas chinesas têm objetivos de muito longo prazo”.

João Marques da Cruz lembra que sentiu isto tudo na pele, “claramente, desde o início, e no dia a dia”, desde que assentou arraiais em Hong Kong. E mais: “É indiscutível que há uma evolução entre as novas gerações de gestores chineses e as anteriores. Na China esta diferença é ainda mais acentuada. A nova geração chinesa de quadros empresariais é muito bem formada, diz o administrador da EDP.

COMO A CTG MUDOU A EDP

Desde que a China Three Gorges (CTG) entrou como acionista na elétrica portuguesa, o gestor garante que as mudanças não foram acentuadas e não prevaleceram as normas orientais, mas o que mudou, sim, foi “a maior capacidade da EDP em fazer coisas em terceiras geografias, com o apoio financeiro dos acionistas chineses. A forma como nos olham agora é diferente. Há a mesma credibilidade técnica, mas também financeira, por causa da China”.

E dá um exemplo concreto e recente. “A EDP está a conseguir fazer projetos que sem a presença do nossos parceiro chinês, a CTG, era muito difícil. Há uma semana foi assinado um acordo em Bogotá, na Colômbia, de compra de uma empresa local com três projetos hídricos. Uma parceria 50/50 entre a EDP e a CTG, numa empresa que é Hydro Global, comprou esses projetos. Pudemos ver nessa transação em particular toda a força financeira e de capacidade de investimento que a China atualmente tem”, relata Marques da Cruz.

De acordo com o gestor, o Presidente chinês Xi Jinping vem a Portugal esta semana anunciar um “reforço do investimento chinês em Portugal”. Além dos setores em que a China já investe em Portugal – como a energia, seguros, saúde e imobiliário – há novas oportunidades noutros setores como os portos ou as infraestruturas, entre outros, garante.

“Podermos estar associados ao poderio financeiro da China é muito positivo para a EDP e para qualquer empresas portuguesa. Independentemente dos estilos culturais, das diferenças de fazer negócio, há uma coisas em comum. O que as empresas chinesas pretendem nos negócios é o mesmo que as outras: criar valor para ter resultados positivos e distribuir dividendos”.

Apesar dos investidores chineses da CTG estarem muito atentos e preocupados com as mais recentes decisões do governo português e que já começaram a afetar as contas da EDP, como apurou o Dinheiro Vivo, Marques da Cruz não espera no entanto um “ralhete” de Xi Jinping ao governo português por causa da elétrica, nomeadamente ao nível dos recentes cortes nos valores a receber por via dos custos de manutenção do equilíbrio contratual (CMEC), entre outros dossiês polémicos.

“Não acredito que haja nenhuma observação específica de desagrado. Não é normal na cultura chinesa colocar as coisas nesses termos. Mas é normal que os investidores queiram que haja estabilidade regulatória e capacidade de o governo português cumprir com todos os compromissos que foram feitos, nomeadamente com os investidores chineses. Eu genuinamente espero que esta visita possa contribuir para um processo de aproximação entre as partes”, disse.

“É verdade que houve problemas, mas acredito e espero que haja agora um processo de resolução desses mesmos problemas”. A visita do Chefe de Estado chinês acontece em pleno contexto de OPA à EDP por parte do seu maior acionista, a China Three Gorges (detida pelo Estado chinês, que também tem participação na REN).

António Mexia já garantiu que a OPA está “a decorrer como esperado”, aguardando ainda as autorizações necessárias nos vários países onde a empresa marca presença, mas a decisão do governo em cortar 285 milhões de euros de alegada sobrecompensação à EDP (aos quais se podem somar mais 72,9 milhões de euros, ainda a exigir à empresa) levou o Conselho Geral de Supervisão, do qual os investidores chineses fazem parte, a avançar para a arbitragem internacional contra a decisão do governo português.

EDP à parte, na visão do presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa, a visita do presidente da China a Portugal terá duas grandes questões em cima da mesa: o reforço do investimento chinês em Portugal e investimentos conjuntos de empresas portuguesas e chinesas em países terceiros na Europa, África e América Latina. “Quando se juntam, as empresas portuguesas estão a dar o seu know how de conhecimento em mercados ocidentais, na América Latina e em África, e estão a beneficiar da força financeira do grande gigante que é hoje a China”.

Dinheiro Vivo